A crueldade do “você sabe com quem você está falando?”

Eu fui vítima do “você sabe com quem você está falando?” quando eu tinha 11 anos de idade, ou seja, há 42 anos. E foi da pior forma, ao menos para a criança que fui, pois a “autoridade” não se dirigiu a mim, mas a uma pessoa querida, maior de idade, que fraternalmente me levou passear com ele.

Tudo aconteceu no Clube de Campo Sorocaba, do qual fui sócio anos depois. A circunstância envolvia um jogo com um tenista do Estrada (clube dos pobres, do qual eu fazia parte) e a derrota, disputa de um ponto, ou algo assim, tirou do sério o pai do filho que levou a pior naquele domingo à tarde do jogo. 

Falando alto, gesticulando, tom ameaçador aquele senhor revelou a sua “preocupação com a posição social e a consciência de todas as regras relativas à manutenção, perda ou ameaça dessa posição”, conforme escreveria Roberto da Matta sobre o assunto. 

Ironia da vida: o autor daquele “você sabe com quem você está falando” em 1978, e que tanto me marcou, terminou a vida em desgraça, absolutamente sozinho e seu filho foi preso por pedofilia, tendo passado boa parte da vida internado em clínica de recuperação de drogado.

Aquele senhor e eu moramos no mesmo edifício. Ele seguiu sendo uma pessoa amarga e que todos no prédio evitavam. Muitos achavam que, por piedade, eu fosse um dos únicos que falasse com ele. Mas pensando bem, acho que eu falava com ele por crueldade. Uma espécie de: veja o que aconteceu, você caiu em desgraça e eu estou aqui, sendo bajulado por você. Ele gostava de comentar as coisas que eu falava na rádio ou escrevia aqui. Nunca lhe disse que eu era aquele menino, assustado, no quiosque das quadras de tênis do Clube de Campo.

Me lembrei disso hoje diante do episódio que dominou as redes sociais neste final de semana, onde o desembargador Eduardo Almeida Prado Rocha de Siqueira do Tribunal de Justiça de São Paulo foi flagrado humilhando um guarda civil municipal de Santos, no litoral de São Paulo, após ser multado por não utilizar máscara enquanto caminhava na praia. 

Na era do Grande Irmão, obviamente que o esperado era alguém ligar uma câmera e gravar o fato. EAPRS se achou imune ao século 21 e um vídeo, agora, expõe ele chamando o GCM de ‘analfabeto’, rasgando a multa e jogando o papel no chão e, por fim, dando uma ‘carteirada’ ao telefonar para o Secretário de Segurança Pública do município, Sérgio Del Bel, para que o mesmo ‘intimidasse’ o guarda municipal.

Ignoro completamente qual é a história de EAPRS. Mas fica claro neste episódio que ele sentiu sua autoridade ameaçada e o prevaleceu desejo de impor o seu poder inferiorizando o interlocutor, quanto ao seu status profissional.

Como mostra a charge que ilustra essa publicação, o desembargador sai dessa história pequenininho. Do seu tamanho, real.

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