A interpretação de Deus pode ser pesada, insensível e preconceituosa

Passo a ceder meu espaço neste blog – o que pretendo fazer de modo mais corriqueiro – para as pessoas que desejem dar voz e denunciar qualquer tipo de experiência que tenham vivenciado em Sorocaba em nome do preconceito, de tabus que matam gente, que roubam o futuro de inocentes.

Hoje, vocês ficam com a narrativa de uma grande amiga, militante de movimento social e da luta antirracista da Região Metropolitana de Sorocaba.

Por Maria Teresa Ferreira

Uma noite entre o desencanto e a resposta é o que preciso e aprendi pra me recuperar desse “mundo veio sem porteira” que vivo.

Ontem descobri o quanto a interpretação de Deus pode ser pesada, insensível e preconceituosa. O quanto a mensagem do Cristo vai sendo deturpada, principalmente a partir do discurso religioso institucional que permite a violência e a segregação das chamadas minorias.

Há uma liberação de julgamentos pra uns e uma condenação absoluta para outros. O diferencia um e outro?

Prefiro partir da premissa do Cristo “aquele que não tiver pecado que atire a primeira pedra”, penso que esse ensinamento elimina o julgamento e logo a condenação.

Os fatos

Atendendo uma solicitação feita num grupo de mulheres do whatsapp, fui conhecer uma Associação Beneficente que trabalha o fortalecimento dos laços familiares através do atendimento psicossocial de crianças, adolescentes, suas famílias e a comunidade.

A idéia era fazer parte de um grupo de voluntários palestrantes da instituição falando das temáticas raciais e aquilo que é transversal a ela como violência, mercado de trabalho, LGBTfobias…

Qual não foi minha surpresa quando a dirigente da associação iniciou o seguinte diálogo:

– É importante falar sobre preconceito, mas aqui nos temos uma base religiosa e não compactuamos ou incentivamos isso.

Eu respondi:

– Isso o quê?

– Eu aceito, mas aqui seguimos a Bíblia e não podemos trazer aqui pra dentro da associação essas idéias. Respondeu ela convicta das “suas bases”.

Pensei comigo: Idéias?

Fiquei estupefata, argumentei sobre as lições do evangelho principalmente a que diz que o Cristo nos ensinou a não fazer a acepção de pessoas, falei que para além da religião, homens e mulheres morrem vitimados por esse pensamento equivocado, disse sobre uma entrevista do pastor Henrique Vieira em que ele diz “o beijo entre duas mulheres não deveria chocar a sociedade, o que deveria chocar a sociedade é a quantidade delas que morre por causa do machismo, sexismo e do preconceito”.

Falei a respeito de informações para a comunidade, afinal era pra isso que estava ali. A administradora da associação não moveu um músculo do corpo e ainda disse que sua base lhe certificava que “isso” é errado.

Encerrei a conversa e fui embora. Como disse Nina Simone: “é preciso se levantar quando o amor deixa de ser servido”. Chorei porque naquele breve diálogo minha existência foi questionada, minha família apagada, minhas decisões julgadas e o veredito final foi: Culpada.

Como disse minha mãe, eu pouco passo por esse tipo de situação, porque tenho instrução, empoderamento e imponho certo respeito pelo tamanho. Isso tudo me coloca numa bolha de proteção.

A pergunta é: minha Humanidade fica onde?

Sim, me senti desprotegida e pude vivenciar a dor de cada jovem expulso de casa, porque seu corpo e sua alma estão fora de sintonia. Porque cansados de brigar se reconciliam consigo mesmos e seguem o que são por dentro, a genuína essência Divina.

Convivo com outro tipo de pessoas, no entanto essa dita “senhora de bem e da igreja” é a materialização do que mata a gente todo dia.

É fácil combater “o mal” junto com quem pensa como a gente. Difícil é enfrentá-lo no terreno dele como eu estava hoje.

Como tudo e sempre estava sem reservas ou armas, fui de boa. Não fui recebida dessa forma. Até que me sai bem, não bati na moça e tive o bom senso de colocar os argumentos que achei pertinentes e me retirei.

Passou, chorei é verdade, muitas coisas passaram pela minha cabeça, inclusive o quanto é frágil a gente apenas ser o que é e quanta força isso demanda.

Acabei no Botequim da Carne, afinal são amigos que nos salvam e principalmente confirmam a beleza de ser quem somos, minha alma aquecida pelo afeto da Neide e a Fer, Agradece.

Ao final, a lição que fica é uma só: ano passado eu morri, mas nesse eu ano eu não morro.

Maria Teresa Ferreira é do Conselho Municipal de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra de Sorocaba; conselheira da Unegro (União de Negros pela Igualdade de Sorocaba) e militante do movimento social e luta antirracista da Região Metropolitana de Sorocaba.

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