A morte de um fantasma que “alugou” seu talento intelectual

O escritor Rubem Fonseca morreu nesta quarta-feira aos 94 anos de idade. E com ele é enterrado o seu maior personagem, ele próprio, um homem que “alugou” sua inteligência e capacidade intelectual para a estrutura que organizou a sociedade brasileira, através de textos que conceituaram a propaganda que levou ao Golpe Militar de 1964.

Rubem Fonseca foi um dos coordenadores do Ipês (Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais), instituição “cérebro” do Golpe de 64, onde o seu talento com a escrita e a sua objetividade para coordenar o Grupo de Opinião Pública materializaram um conjunto de filmes de curta-metragem (os roteiros concisos, ágeis e bem elaborados eram de Rubem Fonseca) com o objetivo de contextualizar a engrenagem montada em torno da propaganda usada para convencer a opinião pública a, não só a aceitar, como a torcer pelo Golpe Militar.

Descobri essa relação de Rubem Fonseca com o Golpe Militar da pior forma possível. Era o ano de 1985, eu havia deixado para trás Sorocaba e a militância no jornal Convergência Socialista, e chegava em Campinas aos 17 anos de idade para frequentar a Faculdade de Jornalismo na PUC. Esse foi o ano em que Sarney assumiu após ter derrotado Maluf no Colégio Eleitoral. Apenas 4 anos depois, em 1989, o Brasil voltaria a ter eleição direta para a escolha do presidente. O ano de 1985 foi emblemático na transição para a democracia. E nesse contexto, aí já em 86, com o Plano Sarney e Cruzado (vale pesquisar para entender o impacto na vida econômica das famílias) em curso “aparece” na república em que eu morava o livro “Buffon & Spalanzani”. Um livro de mistério e investigação. Uma linguagem cotidiana. Uma história que se passa “na rua” e não na cabeça da personagem ou narrador. Uma trama real, de golpe, de enganar o outro como tantas das histórias que ouvimos.

Foi impactante para mim mergulhar numa literatura tão conectada com o jornalismo, a carreira que eu havia escolhido. Aliás, uma literatura “média” de fácil acesso ao leitor pouco familiarizado com o chamado romance profundo. Uma literatura urbana em contraposição ao seu equivalente nessa chamada literatura média ou popular que era o regionalismo de Jorge Amado. Tanto que a literatura de ambos invadiu as telas do cinema e TV.
Empolgado com o livro, naquele tempo de faculdade, percebi que passei a ser visto com reserva, até receio, por amigos próximos. Um desses amigos, que passou a me evitar, eu nutria por ele grande admiração, devoção até, pois ele me apresentou livros de Adorno, Gramsci e tantos outros, ele era estudante da Unicamp, namorado da melhor amiga da moça pela qual eu era apaixonado na época. Foi muito dolorido quando ele passou a me evitar até que eu entendesse o motivo. Isso aconteceu num dia em que fomos até Serra Negra, num lugar com água termal, com chalé. Algo completamente inesquecível para alguém da minha classe econômica e social, pois nunca antes eu havia tido acesso a um passeio como aquele. E depois de umas taças de vinho o meu então amigo me repreendeu por gostar de Rubem Fonseca. Foi um baque pra mim. Eu era muito livre, especialmente à época, para ver tolhida minha opinião, ação ou gosto.

Houve um rompimento nosso naquele instante. Todo culto ao meu amigo se esvaiu. E percebi, muito tempo depois, o quanto o meu afastamento doeu nele. Nos encontramos algumas vezes, mas nada que tivesse sido capaz de restabelecer a admiração que um dia eu tive por ele. Mas ficou o aprendizado, sobre quem havia sido, Rubem Fonseca.

A obra é o seu autor Por isso creio que Rubem Fonseca “alugou” seu talento para quem podia pagar por ele. Ele não se vendeu às ideias ou ideias daqueles que organizaram o Golpe. E essa dicotomia não o contaminou, a prova disso é sua obra. Mandrake, famoso advogado sem escrúpulos, que virou série na HBO a partir das páginas de Rubem Fonseca me parece que seria impossível ter sido parido somente na imaginação do seu criador. Era necessário ter havido o encontro com um similar na vida real. Essa contribuição de Rubem Fonseca à literatura não pode ser negada, nem mesmo pelo meu antigo amigo gramsciniano.

Em tempos de CoronaVirus, Rubem Fonseca não terá a homenagem devida em sua despedida. Mas despertou a curiosidade em torno do mistério que cercou sua vida reclusa, sem entrevista, passeando incólume pelas ruas do Leblon, se interessando pelos jogos do Vasco da Gama. Despertou também por sua obra. Comprei hoje “A Arte de Andar Nas Ruas do Rio de Janeiro” que, para alguns, é a sua melhor narrativa. Estou curioso, afinal livro novo é aquele que a gente não leu ainda.

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