A noite em que um assassinato e uma imediata tentativa de linchamento do assassino, explicadas no vocabulário mais “pobre” que possa existir (Matô maluco ali), me jogam de cara com a realidade da minha vizinhança

Tiros

Davi Fernandes de Sales tinha 23 anos, era casado com a Gabriela e pai das meninas Michele de 6 anos e da Eloá de 4 anos. Ele devia dinheiro para alguém e não pagava sua dívida. Motivo pelo qual, afirma a polícia, Almir Rogério Ramos, de 35 anos, se dirigiu a ele e o matou com três facadas. Tudo isso aconteceu na noite dessa terça-feira, na rua Estado Israel, no Jardim Ipiranga, Zona Oeste de Sorocaba.

Após o homicídio, moradores do bairro tentaram linchar Almir que correu para se esconder dentro da casa da vítima.

Soldados da Polícia Militar (que haviam sido chamados por causa do assassinato) se viram numa operação de combate ao enfrentar os moradores inconformados com o crime. Os soldados usaram balas de borracha e gás lacrimogêneo para conter os moradores que partiram para o linchamento de Almir. A TV TEM exibiu um vídeo com imagens do episódio. Os PMs atirando e a labareda de fogo que sai das suas armas são assustadores por serem realidade e parecerem imagens de filme.

A rua Estado Israel é uma das várias que passo quando estou voltando para casa. E vi toda a cena de guerra quando passava, já perto da meia-noite. Parei o carro e perguntei a um adolescente, de boné e uniforme da escola estadual do bairro, o que estava acontecendo. No mais pobre dos vocabulários, numa voz cheia de malemolência, quase que cantada, ele me disse: Matô maluco ali.

A mensagem foi claramente captada por mim, mas uma frase sem sujeito, um verbo dito sem tempo algum, um adjunto desconectado do todo partindo da boca de um estudante que, me arrisco a dizer, tinha em torno de 16 anos, me assustou.

É muito próximo esse vocabulário do menino que me deu a informação dos crimes ali cometidos. O sentido da vida, banalizada em três facadas ou no linchamento, é de um universo completamente diferente do meu. Choca conhecer a vizinhança. Choca entender o que sente esses meus vizinhos.

Dados dos Núcleos de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo, mostram que no Brasil os casos de linchamentos acontecem com relativa frequência e atingem populações mais pobres, quando alguém pratica (ou é suspeito de ter praticado) algum crime considerado intolerável pela comunidade onde o fato aconteceu, como estupro, latrocínio, sequestro, roubo e lesão corporal grave, como acidente de trânsito, por exemplo, e homicídio de um jovem pai de família como o caso da rua Estado de Israel.

Os dados dos Núcleos de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo também mostram entre as principais razões para os linchamentos estão a ineficiência ou falta de presença do governo e a baixa qualidade dos serviços fornecidos pelo Estado, como educação (Matô Maluco Ali) e segurança pública.

Além disso, linchamentos são mais vistos onde a população não acredita no poder da polícia, resolvendo fazer “justiça com as próprias mãos”, ignorando por completo o princípio da proibição da autotutela, o qual garante o direito exclusivo do Estado como garantidor da lei, da ordem social e da justiça.

Assassinatos cometidos por multidões são ações motivadas por indivíduos com medo e descrentes do poder dos aparelhos judiciais. Estas pessoas tentam, pela desumanização e morte dos “expurgos sociais”, restabelecer a ordem perdida.

Tudo isso tem um sentido quando se lê. Tem outro sentido quando se vê na TV. E, ainda, um sentido completamente estarrecedor quando acontece na sua vizinhança. O Jardim Ipiranga, que nasceu Lilu, que nasceu da invasão do local quando não havia nada naquela região, no começo dos anos 80, mais de 30 anos depois ainda abriga sorocabanos que se sentem excluídos da proteção das leis e carecem da presença do estado em suas vidas.

O fato é que a expressão Matô Maluco Ali virou um mantra que martela a minha cabeça há quase 24 horas. E, o pior, não sei o que fazer com ele.