Adeus Caruso, um comandante do tempo antigo e com a ética que deveria prevalecer nos dias de hoje

CarusoMorreu Maurício Caruso na madrugada de hoje aos 80 anos, 11 meses e 6 dias, ou seja, completaria 81 anos no dia 15 de dezembro próximo. Viveu 79 deles, ou quase 80, em Sorocaba quando chegou aqui com 1 ano de idade.

Tenente aposentado da Polícia Militar e ex-comandante da Guarda Civil Municipal de Sorocaba, Caruso faz parte da vida de milhares de sorocabanos, entre eles eu.

Ao ouvir da voz de Ercolin, o âncora do Jornal da Ipanema, sobre seu falecimento hoje logo cedinho, pensei em Cláudio Abramo, autor do livro Regra do Jogo: Jornalismo e Ética do Marceneiro. Fiquei pensando na razão. Caruso, quando jovem, foi lustrador de móveis e estava aí a ligação entre os dois na minha mente.

Mas ao escrever este texto, que é uma homenagem a Sorocaba por ter tido um filho tão ilustre como Caruso (e também a sua esposa, filhas, netos) tenho certeza que é a essência de ambos – e não a coincidência deles lidarem com a madeira e móveis – que está ligada em minha memória. “…Minha ética como marceneiro é igual a  minha ética como jornalista. Não existe ética específica do jornalista, sua ética é a mesma do cidadão…” afirmou Cláudio Abramo. E exatamente o mesmo poderia ter sido dito por Caruso, pois foi isso o que ele viveu: praticando como policial o que fazia como cidadão.

Caruso foi reconhecido por seu trabalho na polícia: prendeu o “Miltinho” na cidade do Rio de Janeiro, considerado um dos maiores ladrões de carro do Estado de São Paulo na década de 1970 e prendeu na Vila Fiore, em Sorocaba, o “Pelezão”, tido como o nº 2 no Comando do Esquadrão da Morte.

Mas um trabalho voluntário e pessoal de Caruso é o que teve muito mais eficiência e eficácia na sociedade sorocabana: ele era um verdadeiro educador. E posso afirmar isso por experiência própria. No Carnaval de 1981, quando eu tinha 14 anos e me achava autossuficiente e tinha a arrogância juvenil de quem se acha dono do meu próprio nariz, num Carnaval no Recreativo, bebi o que me deram e cai de bêbado. Caruso inconformado por me ver naquele estado me pegou pelo braço, me levou à enfermaria do clube e me devolveu ao meu pai às 4h da madrugada, em casa. O constrangimento do meu pai e da minha mãe com aquela cena me encheu de vergonha. Uma lição dura. Um corretivo que somente se não tivesse acontecido se poderia imaginar qual a consequência para minha própria vida. Algo inimaginável nos dias de hoje. Ao ser filmado por qualquer celular me pegando pelo braço no clube (que é privado) certamente Caruso seria repreendido (no mínimo) pelo comando da polícia. De verdade, nos dias de hoje, não há lugar para nenhuma espécie de Caruso. O nosso problema ficou muito maior quando o Estado falhou e deixou o crime ser organizado. Não há corretivo mais que salve a sociedade. Mas naquela época bastava.

Claro que vai se encontrar muita opinião controversa sobre Caruso. Já ouvi críticas, ainda hoje, logo após ter falado dele no rádio, de que estava endeusando o Caruso e ele não havia sido bonzinho assim. A verdade é que ser ético é ser duro. A verdade é que ser policial é não se permitir agir com tolerância com o que não está certo. Ser policial é fazer o que deve ser feito dentro do que a legislação permite a ele. A tolerância deve existir nos limites do bom senso na família, onde o amor individualizado permite que se construa um cidadão melhor.

Caruso fez o que deveria fazer e teve em vida o reconhecimento por isso: por iniciativa do vereador Anselmo Neto, em 2014, ele recebeu a comenda de Ética e Cidadania da Câmara Municipal de Sorocaba, a maior honraria do gênero concedida em Sorocaba. Ativo membro do Cursilho da Igreja Católica e palestrante para jovens e crianças sobre o nefasto mundo das drogas, Caruso fez a diferença na vida de muita gente. Estou certo que há muito mais agradecimentos do que críticas a quem, como Caruso, viveu no olho do furacão seja nos mais de 30 anos como policial militar ou como nos 12 de comando da Guarda Civil Municipal de Sorocaba.

Adeus Caruso, um comandante do tempo antigo e com a ética que deveria prevalecer nos dias de hoje.