As mulheres negras e o Dia 8 de Março

Para chamar a atenção da sociedade sorocabana neste Dia Internacional da Mulher, este blog abre espaço para que o tema seja, no mínimo, pensado com a seriedade que merece.

A situação de desigualdade na remuneração da mulher com carteira assinada continua menor em comparação ao homem, em Sorocaba, em torno de 30%.

A violência dos homens contra as mulheres (chamado feminicídio) segue em alta, embora as estatísticas não acompanhem os fatos, pois nem o registro desta violência acontece do modo como devera.

A dificuldade que a sociedade ainda encontra de encarar a mulher como um ser igual ao homem, porém, segue sendo de pouca ou quase nenhuma reflexão.

Mas há um dado ainda pior, o das mulheres negras. Essas sofrem por serem mulheres e também negras.

Para contribuir nesta reflexão, publico artigo da sorocabana Maria Teresa Ferreira, ativista das causas de direitos humanos, das mulheres e da luta do negro. E ela lembra “…por muitas décadas, foi esse padrão eurocêntrico que deu tom dos pleitos feministas…”

Acompanhe:

Por Maria Teresa Ferreira

A escritora Grada Kilomba, em uma palestra, disse uma frase que pode nos levar a profundas reflexões sobre o significado do 8 de março, dia Dia Internacional da Mulher.

A autora faz menção ao quesito raça “Uma mulher negra diz que ela é uma mulher negra. Uma mulher branca diz que ela é uma mulher. Um homem branco diz que ele é uma pessoa”.

Aqui podemos ter a compreensão exata de como estão estruturados os lugares na sociedade patriarcal e o quanto o elemento raça estrutura as relações sociais.

Historicamente, as lutas do movimento feminista versavam sobre as necessidades desse corpo “mulher” a partir de um olhar absolutamente eurocêntrico. Essa acepção fica evidente na própria origem do 8 de março. A data foi proposta por Clara Zetkin em 1910, no II Congresso Internacional de Mulheres Socialistas. Foi assumida como referência de luta do movimento feminista a partir da década de 1970, lembrando as trabalhadoras de uma fábrica em Nova York que, em 1911, morreram ao reivindicarem melhores condições de trabalho. Na ocasião, as mulheres ocuparam um dos galpões da fábrica, em represália o proprietário as prendeu lá dentro, fechou todas as saídas e colocou fogo no lugar, matando 129 trabalhadoras.

O movimento feminista tem sido responsável por discutir assuntos como igualdade salarial, melhores e maiores oportunidades no mercado de trabalho, representatividade politica, participação na mídia, direitos reprodutivos, aborto e a luta pelo fim da violência em todos os âmbitos, sedimentando uma série de importantes conquistas para as mulheres em todo mundo. No entanto alguns aspectos deixaram de ser considerados quando essas pautas foram levantadas. Por exemplo, o quesito raça.

Reivindicações ligadas ao mercado de trabalho, como melhores salários e oportunidades, perdem o sentido para as mulheres negras porque desconsideram o fato de que elas já faziam parte da economia enquanto força de trabalho desde que a escravidão foi instituída como trabalho legal no Velho e Novo Continente. Quando falamos de representatividade politica e participação na mídia, essas pautas deixaram de levar em consideração o imaginário criado sobre o corpo negro, em particular das mulheres negras — legado desastroso da escravidão, que impediu essas mulheres de ter uma imagem positiva nos aspectos sociais e individuais, especificidades que fogem do padrão da mulher universal. A falta de autonomia sobre seus corpos, feitos de propriedades comerciais por muito tempo, represou seu potencial intelectual e coletivo prejudicando sua independência social, politica e econômica, deixando-a a largo das discussões sobre direitos reprodutivos e violências institucionais.

O padrão eurocêntrico de mulher nunca deu conta das especificidades do gênero. Por muitas décadas, foi esse padrão eurocêntrico que deu tom dos pleitos feministas.

Mesmo assim, ao longo dos últimos anos, outras analises passaram a falar de outras mulheres e suas necessidades. Principalmente as reflexões a respeito das mulheres

negras fizeram com que surgisse o que chamamos de feminismo negro, a fim de promover, visibilizar e reivindicar o direito e acesso às mulheres negras.

Pensando na inclusão dessas mulheres e na ampliação do pensamento feminista, autoras como Ângela Davis, Patrícia Hill Colins, bell hooks, entre outras, criaram uma literatura feminista negra que passa a levantar a realidade dessas mulheres, fazendo a interface delas com o restante das pautas feministas. No Brasil, mulheres como Beatriz Nascimento, Lélia Gonzalez, Sueli Carneiro, Jurema Werneck e Djamila Ribeiro tem estruturado o pensamento feminista brasileiro negro contribuindo para as mulheres negras se organizarem e, assim, conquistarem espaços de protagonismo.

O passar do tempo sofisticou as estratégias do racismo estrutural, mas também aprimorou o entendimento dessas mulheres quanto às manobras de enfrentamento a ele.

Um desses instrumentos foi a desnaturalização do ser mulher eurocêntrico, numa compreensão do gênero mais ampla e capaz de responder as suas necessidades a partir das especificidades. Hoje temos inúmeros movimentos de mulheres negras que, na sua grande maioria, são oriundas das comunidades, das periferias e das favelas que se colocam em posição antagônica a esse sistema que insiste em cala-las. Essas mulheres partem do impositivo da sobrevivência sem se esquecer da necessidade de construir redes de fortalecimento e apoio.

O feminismo negro reivindica o reconhecimento e a valorização das contribuições que as feministas negras deram ao movimento feminista, à medida que as questões levantadas por elas abriram um leque de questionamentos capazes de tirar do lugar comum conceitos e comportamentos arraigados no feminismo brancocêntrico que universalizava as mulheres. Para as mulheres negras, o 8 de Março deve ser um grito para o exercício de um modelo intersecional de lutas.

 

Bibliografia: Mulher negra brasileira um retrato (https://periodicos.ufsc.br/index.php/ref/article/viewFile/16468/15038); Movimento Feminista Negro e suas particularidades na sociedade brasileira (http://www.joinpp.ufma.br/jornadas/joinpp2015/pdfs/eixo6/o-movimento-feminista-negro-e-suas-particularidades-na-sociedade-brasileira.pdf); Nossos feminismos revisitados (https://periodicos.ufsc.br/index.php/ref/article/view/16462/15034). E Nascimento, Beatriz. A mulher negra e o amor. Jornal Maioria Falante, fev.-mar. 1990, p. 3.

Maria Teresa Ferreira é do Conselho Municipal de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra de Sorocaba; conselheira da Unegro (União de Negros pela Igualdade de Sorocaba) e militante do movimento social e luta antirracista da Região Metropolitana de Sorocaba.

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