As pessoas sairão da prisão e devolverão à sociedade o tratamento recebido

Assistir televisão comigo é um martírio para quem está do lado, pois eu mudo de canal a todo instante, numa espécie de construção de uma história que busco algum sentido no puro acaso. Muitas vezes é divertido…para mim, repito. Para quem está junto, martírio.

No começo da noite de quarta-feira, minha mulher estava deitada na cama, teclando no celular, e eu na “cadeira do papai” perambulava pelos canais. Ah, mudos… Sim, se tem uma coisa que me irrita é o som da televisão. Vejo imagens. E quando algo desperta meu interesse, obviamente, aumento o volume para ouvir.

E tomei um susto com Sikêra Júnior, na RedeTV! 

Fui ver a história do homem que aparece na tela. Trata-se daquele que chegou a dar declarações contrárias ao isolamento social, assim como o presidente, defendendo de modo veemente o isolamento vertical — que preserva apenas grupos de risco, como os idosos. E, ironia do destino, ele quase morreu pois, não faz ideia de onde, mas pegou o Covid19.

Meu primeiro choque ao olhar figura tão grotesca foi o de achar que havia ligado a televisão em 1991, quando no fim de tarde de uma segunda-feira, estreava no SBT o “Aqui Agora”, “jornal pioneiro no Brasil no uso do Gerador de Caracteres ao exibir manchetes bastante escandalosas sobrepostas às imagens, bem como do uso da câmera na mão em matérias jornalísticas, muitas das quais envolvendo sequestros, tiroteios e perseguições policiais mostradas ao vivo. Seu grande foco era em reportagens policiais, especialmente sobre assassinatos e crimes escandalosos…” O “Aqui Agora” alcançou altos índices de audiência exorbitantes, chegando a picos de 50 pontos.

Meu segundo choque era seu discurso. Um bandido pé de chinelo, negro, obviamente, para reforçar o estigma de preconceito em quem assistia, era exibido pela câmera e, de dentro do estúdio, o valentão Sikêra gritava que não se trata de um cidadão. Que um meliante como aquele não pode ser tratado como gente.

Me lembrei do livro “Desterro”, da psiquiatra Natália Timerman, e de uma entrevista que ela deu a Rodrigo Casarin do blog Página Cinco  (https://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2017/04/19/psiquiatra-de-hospital-prisao-escreve-livro-para-mostrar-que-detentos-sao-pessoas-comuns-nao-seres-inferiores/ ).

Sikêra, obviamente, não lê este blog e, apesar de precisar, claramente, não conhece a psiquiatra. Ela diz: “Encarar os detentos como seres humanos é importante simplesmente porque é assim que os seres humanos devem ser tratados (…) Aberração é tratar alguém como bicho ou como se fosse inferior (…) porque o que acontece com qualquer pessoa diz respeito à humanidade toda, ao menos enquanto possibilidade. E também porque aquelas pessoas sairão da prisão e devolverão à sociedade, de alguma forma, o tratamento recebido…”

Que Sikêra não queira saber disso eu até entendo, mas meu terceiro choque foi ver, ao acaso, esse grotesco personagem em meu quarto, e constatar que 30 anos depois a TV brasileira segue sem se interessar por que uma pessoa, sob vários aspectos, deixar de ser si mesma, para “entrar” na criminalidade deixando família, amigos, mundo, pertences e até mesmo seus gestos do lado de fora dos muros de uma prisão.

E haja audiência, anunciante, um ciclo mal educando o brasileiro em suas mensagens diretas e subliminares.

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