“Como é duro ser negro no Fórum de Sorocaba! “Oi fia! Você é a ré?”

Denílson José de Melo foi um dos meus melhores amigos de quando eu era criança e um talento nato para o futebol. Não digo que ele teria sido melhor do que Pelé ou Garrincha ou Ademir da Guia, mas Neymar, Ronaldo, Ronaldinho não teriam chegado aos seus pés.

Eu, por minha compleição  física, era bom de falar, organizar e gritar vaiii… Pegaaaa… deixaaaa… joga pro Negão; agora, agora… e… batata… era dar a bola pro Negão e ele resolvia os nossos problemas: primeiro, tirava a bola do nosso setor, a defesa – quem é ruim de bola sabe o quanto a bola apavora os zagueiros por isso ela chega e nós damos chutões – e segundo, ele fazia o gol ou a jogada do gol. Negão era craque!

Quando o Chumbão escolheu o Negão para ir ao São Paulo, sim ele saiu do time do Estrada lá da Vila Santana e foi para o São Paulo, o poderoso time do Morumbi, me enchi de orgulho. Negão era são-paulino, foi onde queria. Nosso time, o da rua Moreira Cabral, já estava desfalcado do Negão quando ele foi jogar no Estrada e sem ele, nunca mais fomos ninguém. Negão era craque e, como tal, insubstituível.

Eu já estava na faculdade, em Campinas, com apenas 17 anos, quando recebi a notícia de que o Negão tinha morrido. Ele estava andando na rua São Bento, no centro de Sorocaba, e caiu duro. Um aneurismo em seu cérebro se rompeu. Ele, no máximo, tinha 18 anos. Não convivíamos mais, ele já havia herdado o apelido de seu irmão mais velho, Peta. Assim como seus irmãos gêmeos mais novos, Douglas e Diógenes, ficaram com o apelido de Petinha e ainda hoje jogam bola. Djalma, Djair, Deise e outro irmão que me lembro do rosto, me lembro que começa com D, mas me foge o nome, todos irmãos, filhos do seo Zé, sobrinhos do Tufi.

O Negão não saia de casa, dividia o sofá da sala de casa para comer e ver TV, dividia meus “indinhos” e eu adorava ir na casa dele, na rua João Nascimento, e subir numa mureta que imaginávamos ser o cavalo das séries que víamos na TV…

Me lembrei do Denílson no meio da tarde de hoje, quando conheci pessoalmente o Jackson do site Sorocabanices (www.sorocabanices.com.br) e abri o Facebook e na minha Linha do Tempo acabava de ser postado um desabafo de uma pessoa conhecida e querida, a advogada Patrícia Ferreira. Leitores de um pouco mais de idade vão se lembrar da mãe dela, que algumas eleições atrás foi candidata a vice-prefeita de Sorocaba na chapa de Chaves Neto. Pois bem, escreveu Patrícia: “Como é duro ser negro nesse Fórum! “Oi fia!” “Pois não senhora!” “Quem é você, a ré?”. Acho que eu sou muito preta, digo, muito nova para parecer uma advogada!”

O Denílson nunca teve “cor” para mim. E eu nunca tive para ele. Para ele eu era “alemão”. Simplesmente éramos o que éramos.

Mas… Eram os anos 70. Morávamos em bairros – e hoje se mora em condomínios. Íamos na mesma escola, pú-bli-ca. Hoje a escola pública é para quem não pode ir na escola particular. Há um aparthaid estudantil e educacional, reconheço. Ainda, digo, repito, ainda, a igreja me parece ser a mesma para todos – se eu estiver errado me corrijam. Por isso, quando Patrícia chama a nossa atenção, de que na cabeça de pessoa humildes (quem a chamou de fia, certamente foi uma atendente ou algo assim) os réus são os negros. Os doutores são os brancos, ou seja, os que moram em condomínios e estudam em escolas particulares.

E é preciso que as famílias estejam bastante atentas a isso.

Que cada negro, aja como a Patrícia. O silêncio em nada ajuda no combate ao preconceito.

PS – Dirceu é o nome do irmão do Denilson, me lembra meu irmão Mauro.

Ruth, mãe da Patrícia foi candidata a vice de Chaves Neto, me corrigiu o professor Osmar e já acertei no texto.

E minha filha alerta que misturei histórias da minha neta e para evitar problemas eu tirei do texto original certo de que não afeta a sua essência que é o combate ao preconceito.

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