Creditar ocupações de escolas a partidos políticos é reduzir o movimento espontâneo de jovens que desejam ser ouvidos e ter seu protagonismo na mudança do ensino. A análise é de observador desse movimento nacional que chega agora a Sorocaba

ctiocupadoPor volta da 10h de hoje, a Etec Rubens de Faria e Souza, uma das mais tradicionais de Sorocaba, localizada vizinha a rodoviária, foi ocupada por cerca de 80 alunos da instituição. Instantes depois, chegaram mais 40 estudantes aliados ao movimento, mas de fora da escola, para ajudar no processo de ocupação. No momento houve diálogo com diretor e os funcionários da escola, e haverá aula junto com a ocupação.

Oficialmente, os estudantes pedem o fim da PEC 55 do Senado (que na Câmara era a PEC 241) que determina um teto de gastos por parte do governo, ou seja, só se gasta depois que o dinheiro entrar no caixa do governo. Eles também são contrários a MP da Reforma do Ensino Médio. Eles consideram as duas PECs retrocesso na educação e saúde brasileira.

Dirigentes do diretório municipal do PSOL de Sorocaba, logo após a ocupação da EE Jorge Madureira, semana passada, foram acusados de estar pro trás dessa ocupação. Fato negado ao comando da Polícia Militar de Sorocaba por dirigentes do partido.

Na sexta-feira, pelo telefone, na coluna O Deda Questão no Jornal da Ipanema (FM 91,1Mhz) entrevistei Ernesto Maeda, ex-professor da rede pública de ensino do Estado de São Paulo e ex-dirigente da Apeoesp (sindicato dos professores da rede pública paulista), mestre em Educação e atualmente observador das ocupações das escolas no Brasil. O objetivo foi tentar entender o que os estudantes estão fazendo, o que eles vão conseguir com essas ocupações.

Maeda disse que objetivamente essas ocupações tem o objetivo de chamar a atenção da sociedade para aspectos das duas PECs, a de controle de gastos (que vai prejudicar a saúde, mas manter regalias para o governo) e a da Reforma do Ensino. Mas que por trás há um sentido de cidadania muito mais amplo onde os jovens conseguem construir o sentimento de autonomia e elaboração da sua própria voz no contexto social.

Na sua análise, afirmar que as ocupações são obra do PSOL é reduzir demasiadamente o sentido delas e, pior, não ter interlocutores à altura para compreender o sentido das ocupações. Para Maeda, os jovens buscam o seu protagonismo nas mudanças sociais, em particular no ensino, que estão sendo decididas somente pelo governo Temer. O professor lembra que faz parte do que é ser humano a necessidade de ser ouvido e isso é muito mais latente nessa fase da vida, quando se está na adolescência, e essas ocupações estão dizendo isso: os jovens querem ser ouvidos. Por isso, o sentido de resistência, de contestação, de ocupação do seu espaço (que é a escola), diante da falta de percepção dos governos federal e estadual, estão transformando esse movimento num ato político em seu sentido maior que extrapola os partidos, enfatiza Maeda.

O professor diz que muitos jovens que estão na ocupação são simpatizantes ou militantes de partidos políticos, mas a maioria faz parte de grupos independentes como Domínio Público, Levante, União da Juventude Socialista, Novo Comando Estudantil entre outros.