Crespo perde chance de agir como Itamar

O prefeito Crespo decidiu que os três secretários municipais (Eloy de Oliveira, secretário de Comunicação e Eventos; Hudson Zuliani, secretário de Licitações e Contratos; Werinton Kermes, secretário de Cultura e Turismo), que estão na condição de investigados na Operação Casa de Papel, onde o Gaeco, Polícia Civil e Tribunal de Contas do Estado de São Paulo os acusam em investigação de contratos superior a R$ 25 milhões, ficam no governo, pois não há nada provado contra eles.

É verdade. No momento, não foi formalizada acusação alguma, mas colocada uma clara suspeita de que cometeram ato ilícito com o dinheiro público.

Eu entendo que Crespo deveria ter agido como Itamar Franco, quando presidente da República, e os 3 secretários como Henrique Hargreaves, então chefe da Casa Civil do governo de Itamar.

Amigo de Itamar, Hargreaves foi alvo de vagas acusações contra ele feitas por outros políticos, não foi acusação de Gaeco, Polícia ou Tribunal de Contas. Dizia-se que, tendo em vista suas funções no Senado, era impossível a Hargreaves não saber ou mesmo não ter participado do enorme desvio de verbas públicas que a CPI do Orçamento desvendava naquele momento. Os adversários políticos aproveitaram para atacar Itamar e Hargreaves, levantando a suspeita de corrupção.

Hargreaves, então, pediu exoneração do cargo, para preservar o presidente e não interferir nas investigações. Três meses e alguns dias depois, nada havia sido encontrado contra Hargreaves. As suspeitas eram infundadas e as acusações eram levianas. Ele, então, voltou à chefia da Casa Civil, onde ficou até o fim do governo de Itamar. Saiu e voltou por cima.

Ou seja, eu na condição de Eloy de Oliveira, Werinton Kermes e Hudson Zuliani, pediria exoneração para preservar o governo Crespo. Eu, sendo o prefeito, para preservar o governo, faria como Itamar aceitaria imediatamente o pedido de exoneração dos amigos ou, no caso, os demitiria.

A atitude de Hargreaves, endossada por Itamar, é a que deveriam ter todos os que exercem funções públicas, em qualquer nível, e que fossem acusados de irregularidade e corrupção.

O afastamento não é, como dizem alguns no Brasil, uma confissão de culpa. É uma atitude preventiva, que atende aos dois objetivos citados por Hargreaves: preserva o governo, ou o órgão ao qual o acusado está vinculado, e elimina a possibilidade de, no cargo, ele interferir nas investigações. Se a culpa não é comprovada, o acusado volta à função, como fez o chefe da Casa Civil de Itamar.

Mas somos um país em que o exemplo de Hargreaves não prosperou.

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