De estatísticas a pessoas que a gente conhece, a diferença é grande

A morte do médico Eno Lippi, pai da Selma, Íris, Laís e Vitor teve repercussão em praticamente toda a cidade desde quinta-feira à tarde, quando aconteceu o fato, em razão da causa da morte ter sido complicações provocadas pelo Covid19 (CoronaVírus) e do seu filho ser ex-prefeito de Sorocaba e atual deputado federal.
Sorocaba registra outras 15 mortes em razão do Covid19, mas nenhuma havia sido capaz de nos comover coletivamente como a morte do pai de um dos políticos mais populares da cidade. A notícia soou diferente aos nossos ouvidos.
De um amigo, ouvi: “começamos a sentir que a Covid-19 é uma realidade e que estamos todos ameaçados, uns mais, outros menos. As notícias deixaram de ser projeções e começam a se tornar fatos, infelizmente. De estatísticas a pessoas que a gente conhece, a diferença é grande”.
Um outro, foi didático: “Quando aumenta a proximidade, as pessoas passam a acreditar mais.”
Um terceiro me disse: “Essa doença atinge pobres e ricos igualmente, pois não foi por falta de recursos que o doutor Eno morreu”.
O prefeito de São Paulo, Bruno Covas, num momento em que o noticiário dava indicativos de que a flexibilização do isolamento poderia ocorrer, surpreendeu ao dizer, com todas essas letras: “o pior ainda está por vir”.
O presidente da República, envolvido em nova polêmica, dessa vez demitindo o comandante da Polícia Federal e esvaziando o “superministro” Sérgio Moro, não propagou que a Covid19 trata-se apenas de uma gripinha, porém ainda não reconheceu a gravidade do problema.
Me lembro, em 1985, quando as mortes por Aids eram algo real, mas apenas no noticiário, mudar de patamar com o anúncio da morte de um vizinho na Vila Santana.
De acordo com a Gestalt (Teoria da Mente desenvolvida pela Escola de Berlim, Alemanha), elementos muito próximos uns dos outros, se encaixando harmoniosamente, são processados em nosso cérebro como elementos conjuntos, ou unidades. É o princípio da proximidade, onde elementos semelhantes reforçam ainda mais nosso cérebro para a leitura de um só objeto. Ou seja, quando o Covid19 atinge alguém semelhante a nós, passa a ser mais natural que a gente leia a realidade de uma maneira só: o Covid19 está aí, não tem remédio e a salvação é o isolamento.
Imagino que vá haver, ao menos localmente, um refreamento na falsa polêmica: Isolamento x Emprego, Renda, Economia…Falsa porque sem vida, não há nada mais. Ainda há uma descrença sobre o perigo da doença em que pese imagens pesadas das covas comunitárias de São Paulo, Nova York, Roma, Pequim, Guaiaquil, Manaus estejam em todos os sites, portais, jornais e TVs.
Imagino que vá haver, ao menos localmente, um refreamento na falsa afirmação de que pedir “Fique em Casa” é ato de terrorismo e que as mortes pelo CoronaVírus serem bem menores do que as mortes por assassinato, por exemplo.
As empresas vão quebrar. É evidente isso. Há um refreamento abrupto na economia.
Ouvi no noticiário pela manhã que 40% do setor de bares e restaurantes será fechado, segundo avaliação da Associação Nacional que monitora a saúde financeira dos seus membros.
O dono de um dos principais estabelecimentos comerciais de Sorocaba, que está aberto durante essa pandemia, me disse que eles estarão 20% menores após a pandemia, mas vão aguentar, por um tempo que ele não sabe qual é, manter 400 dos seus funcionários em casa.
O dono de uma empresa de atuação estadual, meu apoiador financeiro neste blog, me comunicou a interrupção do seu patrocínio em razão do último mês ele ter constato, após o balanço fechado, queda em 45% do seu faturamento.
São números catastróficos que apenas confirmam: as empresas vão quebrar. Mesmo assim menos, isso é menos trágico do que a morte de qualquer pessoa. Ainda mais de alguma próxima da gente.

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