Depois de deputado, sindicalista e desembargador do trabalho, representante da indústria surpreende ao revelar visão do seu setor: reforma trabalhista e terceirização ajudam, mas não resolvem o problema do desemprego no Brasil

Erly

Erly de Sillos responde muito mais com razão do que paixão sobre reforma trabalhista e terceirização

O presidente do Ciesp (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo), regional de Sorocaba, Erly de Sillos, foi o convidado de hoje na coluna O Deda Questão no Jornal da Ipanema (FM 91.1Mhz) na série de entrevistas que estão sendo realizadas nas últimas semanas a respeito do projeto de Reforma Trabalhista e Terceirização que está em tramitação no Congresso Nacional.

A série começou com a entrevista do deputado federal sorocabano Vitor Lippi que explicou os motivos dele ser favorável à reforma trabalhista em tramitação na Câmara, justificando sua posição lembrando que há abuso na quantidade de ações trabalhistas no Brasil. Na sequência foram a vez do presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Sorocaba, Leandro Soares (que explicou as razões de ser contra a proposta de reforma trabalhista); e do desembargador do Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Região, em Campinas, João Batista Martins César, que também entende que a reforma trabalhista e terceirização não trará benefícios ao trabalhador.

Surpreende

O que mais surpreendeu no pronunciamento de Erly de Sillos foi o seu tom racional em relação ao que está sendo discutido e votado. A expectativa de que fizesse uma defesa pela paixão foi sendo desfeita com o passar da entrevista onde o representante dos empresários demonstrou que as reformas são necessárias, mas não vão resolver o problema do desemprego no Brasil. Para ele, apenas um foco em políticas públicas que incentive a produção (hoje o incentivo é para a economia financeira, ou seja, para garantir ganhos estrondosos aos banqueiros) é que vai reverter de fato o fechamento de emprego que o Brasil experimenta há dois anos.

Ele apoia a Operação Lava-Jato, mas deixou evidente que sem uma reforma política, que acabe com legendas de aluguel, em uma década, quando os corruptos de hoje estiverem fora de cena, novos vão surgir. Ou seja, é preciso de um novo sistema político e de financiamento de campanhas.

Erly também surpreendeu ao clamar por novas lideranças políticas e não escondeu sua decepção em ver os nomes do senador José Serra, do governador Alckmin e a capa da revista Veja com o senador Aécio Neves envolvidos na corrupção. Ele defendeu que independentemente da cor quem errou deve pagar.

20 mil desempregados na indústria

De acordo com o presidente, Sorocaba registrou em 2016 o fechamento de 12.800 postos de trabalho e outros quase 8 mil postos de trabalho em 2015. Ou seja, em dois são 20 mil postos de trabalhos fechados somente no setor industrial. O que significa, na prática, levando em conta que cada emprego significam 3 pessoas por família, na média, pelo menos 60 mil pessoas atingidas diretamente pela crise. Um número extremamente significativo por ser equivalente a 10% da população sorocabana e se referir somente à indústria.

Foco nos pequenos e micros

Na opinião de Sillos, a reforma trabalhista atenderá os micro e pequenos empresários, entre eles pessoas que deixaram o ramo da indústria para montar negócio próprio. “Hoje o empresário paga muito e o trabalhador ganha pouco. Lamentavelmente grande parte vai para o bolso do governo e é muito mal gasto. Países como Dinamarca e da Europa em geral tem uma carga tributária tão alta quanto a do Brasil, mas lá funciona”, comenta. “Aqui vemos filas em hospitais, educação aos ‘trancos e barrancos’ e o governo cobrando uma das taxas tributárias mais altas do país”, completou.

A favor das manifestações

Sillos também afirmou ser a favor da “pressão” de trabalhadores e empresários para que “o setor político do país comece a mover as ‘pedras’ como devem ser feitas e não pelo interesse particular de poucos”.

Questionado se a terceirização e a reforma trabalhista podem aumentar o número de empregados, Sillos respondem que “não”, se “não for resolvido o problema da crise”. “Resolvendo-a, temos de ter a modernização das leis trabalhistas brasileiras. A realidade do país há 50 anos era uma coisa. Hoje, como o sistema informatizado, muita coisa mudou. Se o Brasil não mudar ele vai perder competitividade no mundo. É um país que exporta e importa muito pouco”, defende. “Não é que [a terceirização] vá resolver a empregabilidade, mas é uma somatória para melhorar as condições de trabalho”, argumentou.

Ainda sobre a lei da terceirização, o presidente cita é interessante, pois isto ajudaria na questão jurídica trabalhista. “Há cerca de três milhões de ações trabalhistas no país. O juiz não tem condições de fazer análise disso. A coisa vai se arrastando. O trabalhador entra com pedido de ação na empresa e o processo se arrasta. Ninguém ganha com isso. Acaba-se gerando insegurança jurídica”.