Depois de matar as pequenas livrarias, as grandes pedem socorro

Quando li a carta de amor aos livros de Luiz Schwarcz, da Cia das Letras, me lembrei do Rafael da Livraria Prosa & Verso, uma pequena portinha na rua Nogueira Martins, no centro de Sorocaba, e dos amigos Henriberto e Nelsão que abriram sua livraria na rua Gustavo Teixeira no Mangal. Me lembrei de quando era criança e adorava o dia de ir na “cidade” – como nos referíamos à região central lá na Vila Santana nos idos de 70 – e parar (foto) na Livraria Gutierres (onde os livros ficavam longe do consumidor, numa prateleira onde apenas o dono tinha acesso, como hoje os remédios são apenas de acesso dos balconistas da farmácia). Todas estão fechadas e há tempos. A única livraria de rua que sobrevive em Sorocaba é a Nobel. No shopping tem a Saraiva. Aliás, a carta de Schwarcz se origina do pedido de recuperação judicial dessa megastore dos livros, assim como ocorreu ou está para ocorrer com a poderosa Livraria Cultura da avenida Paulista ou aconteceu com a Fnac que simplesmente fechou suas portas no Brasil.

Me lembrei, ainda, do filme de 1998, “Mensagem para Você”, com Tom Hanks e Mega Ryan, adaptação da peça do húngaro Miklos Laszlo “A loja da Esquina” (1940) e “A Noiva “Desconhecida” (1949). Em “Mensagem para Você” duas pessoas se conhecem através de uma sala de bate papo na interne e mantêm suas identidades em segredo e se correspondem por e-mails. Porém, na vida real eles são concorrentes no ramo dos negócios de livros. Kathleen Kelly (Meg Ryan) tem uma loja de livros infantis muito tradicional, cujo nome não poderia ser mais encantador, “A Loja da Esquina”, que pertencia a sua mãe e que encantou uma geração contando histórias. Joe Fox (Tom Hanks) é simplesmente dono de uma das maiores cadeias de livrarias, famosa por vender livros mais baratos. Joe Fox abre uma de suas famosas lojas bem perto da pequenina Loja da Esquina e com a concorrência esmagadora (afinal vivemos em tempos onde o que vale é promoção e preços baixos e poucas pessoas se importam com uma lojinha tradicional que vendem livros lindos e feitos à mão, mas que custam caros), o fator econômico “mata” a pequena livraria.

E lembrando disso tudo vejo o quanto é cínica e oportunista a carta de amor aos livros de Luiz Schwarcz, da Cia das Letras (essa editora significa para os livros o que a Coca-Cola é para os refrigerantes).  Assim como Joe Fox (Tom Hanks) do filme, sua editora ignorou e derrubou as livrarias do Rafael, Henriberto, Nelsão e Gutierres para ficar somente nos exemplos de Sorocaba. Sua editora apenas se relacionou e incentivou as megastore e ignorou milhares de cidades brasileiras que não possuem e nunca possuíram sequer uma única livraria. Pedir socorro agora, como faz Schwarcz, é o mesmo que o carrasco que pede ajuda a quem ele torturou. Hipócrita!

A carta de amor aos livros de Luiz Schwarcz me faz lembrar da publicação do meu livro (Em Branco Não Sai), fruto da dissertação de mestrado, que foi objeto de interesse da editora Codex (que também não existe mais) e publicou 3 mil exemplares. Alguns podem ser encontrados nesses sites de liquidação. Pois bem, eu recebia 8% do preço da venda da capa, a editora 32% e as livrarias (pontos de venda) ficavam com 60%. E era pegar ou largar. A vaidade em ver seu livro publicado – e lido, ah quem dera encontrasse leitores… – leva o escritor a aceitar essa draconiana relação.

Com todas essas lembranças, fico com a certeza de que A carta de amor aos livros de Luiz Schwarcz é unicamente uma carta de amor ao próprio bolso.

Que dessa desgraça sobre a megastore ressurjam as pequenas editoras, livrarias e espaços de livros. Que as editoras dividam melhor sua preferência pelos livros estrangeiros, que vêm com o sedutor selo de Mais Vendidos da NY Times, e arrisque em novos autores nacionais. Quem pague um salário digno ao escritor viver de sua escrita. Que invista no autor como as editoras norte-americanas, asiáticas e europeias investem em seus escritores (agente literário, editor, preparadores de texto, revisores, pessoas que leem o original e contribuem). Um autor de sucesso não se faz sozinho!

Num ponto, porém, concordo com o megaempresário, dê um livro de presente nesse Natal, de qualquer editora, de qualquer gênero. Apenas mantenha a roda girando.

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