Dia da consciência negra. E eu com isso?

Numa das cenas de O Poderoso Chefão, quando Vito Corleone (Marlon Brando) se recupera dos ferimentos da emboscada da qual foi acometido e ainda sofre com a morte do seu filho, numa reunião dos cinco chefes das famílias de Nova York, há uma discussão ética sobre o comércio de drogas.

A bebida, a proteção aos comerciantes, o jogo de azar, a prostituição eram o negócio da Máfia até então com a disfarçada proteção da Igreja Católica. Mas drogas, não!

Um dos chefes, cujo os negócios não andavam tão bem como dos outros, insistiu na argumentação de que era preciso expandir seus produtos, mesmo sem a bênção das outras família e da igreja, e numa postura “ética”, se comprometia a vender drogas longe das escolas para não corromper as crianças e ter como clientela apenas os negros, “que nem gente são”.

Sim… Essa frase está lá no filme e me choca toda vez que revejo o filme. Esse é um que já revi, seguramente, umas dez vezes. Está fala está também no livro de Mário Puzo, de onde nasceu o filme.

Eu sou de origem italiana. De pai (Benetti) e de mãe (Delazari). De avós (Ercolin, Anastasia, Girardi) e essa fala do livro e filme sempre me incomodou muito. Sou um curioso da cultura italiana e, a história, ajuda a compreender onde essa aberração de se ter aversão por alguém de pele escura tenha nascido no velho continente. Ainda bem que isso está se dissolvendo ao longo dos últimos tempos. E creio que eu, posso dizer, seja uma prova bem viva disso, uma vez que a cor da pele de ninguém me afeta a ponto de interferir no juízo de valor que faço dela.

Por isso mesmo, sei que o feriado desta quarta-feira, 20 de Novembro, para a celebração do Dia da Consciência Negra, em referência à morte de Zumbi dos Palmares, é uma questão de todos os brasileiros.

Zumbi é o símbolo da luta pela liberdade e valorização do povo afro.

Vejam, eu sou do povo italiano, cujo meu nonno, em 1895, quando chegou ao Brasil no colo do pai dele, Carlo, veio iludido (essa história merece ser conhecida e há literatura disponível a respeito) de que aqui teria sua terra. Na verdade, os italianos daquela leva seriam escravizados como substitutos dos negros recém-libertados em 1888 pela Lei Áurea. Algo tão absurdo, que não prosperou. Os negros eram bens, os italianos, não. Portanto, a luta da qual Zumbi é o símbolo faz todo sentido.

Mas os italianos vinham da Itália que abriga o Vaticano, a terra do Papa, o dirigente máximo em termos terrenos do Cristianismo católico.

Já os africanos vinham de Angola, Moçambique, Congo… cuja cultura e religiosidade estava cravada no que hoje conhecemos como Candomblé, Cabula, Bantô.

Num período predominantemente de ignorância, aceitar o diferente, conviver com o diferente, aceitar o que não fosse igual era algo absolutamente impensável. Daí o verso famoso de Caetano Veloso “…Narciso acha feio o que não é espelho…”

Para um católico cristão aceitar ou entender o praticante do candomblé era algo inaceitável. E toca aniquilar o que a gente não aceita. Toca o uso da força. Ou seja, o dia da Consciência Negra, seja qual for sua origem, tem tudo a ver com você, caro leitor! Não se iluda do contrário. Pois apenas por acaso, sendo você católico, cristão e de pele branca você esteve do lado da força, senão estaria do lado da resistência, seria usado enquanto tivesse serventia e descartado em seguida. Zumbi, ciente dessa realidade, liderou o Quilombo dos Palmares, o mais conhecido núcleo de resistência negra à escravidão no Brasil.

A luta de Zumbi, em pleno século 21, está apenas engatinhando.

Avós e mães foram domésticas, enfermeiras para que hoje a filha/neta sejam a única negra numa sala de aula de uma Faculdade de Medicina. Única aluna negra.

Numa agência bancária, 90% dos funcionários ainda são brancos. Em qualquer andar da prefeitura, 90% dos funcionários são brancos. Na prisão, 90% são negros…

Repito, o dia da Consciência Negra, seja qual for sua origem, tem tudo a ver com você, caro leitor! Não se iluda do contrário.

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