E a realidade: também continua o desamparo às crianças que inundam semáforos da cidade vendendo balas ou pedindo algum trocado em busca de um mínimo de dignidade

CriancasDeRuaSorocabanos estão gastando energia para debater o grafite de Panmela, os já chatos, enfadonhos e repetitivos capítulos da novelona mexicana envolvendo a briga entre o prefeito Crespo e a vice Jaqueline, mas ainda fecham os olhos para a realidade que segue há décadas assombrando a cada um de nós nos semáforos da cidade: crianças vendendo balas, chicletes ou pedindo algum trocado em busca de um mínimo de dignidade. A crise econômica (sem falar a ética, moral e política) que assola o Brasil faz a cada dia que passa novas vítimas que são empurradas aos semáforos (quando não aos crimes).

Ricardo, um amigo que ainda é capaz de se indignar com as injustiças vivenciadas em Sorocaba, me mandou mensagem hoje no começo da tarde a respeito de seis crianças, de no máximo 12 anos, segundo avaliação dele, que ocupavam os semáforos no cruzamento da Washington Luiz com Barão de Tatuí vendendo balas e chicletes. Cena que se repete há décadas e que deveria ajudar o sorocabano (o brasileiro na verdade) a entender o que está vivendo.

Aprendi em casa, foi base da minha educação familiar, que a gente colhe o que planta. E não tem lamento ou reza que mude isso, ou seja, não adianta plantar batata e depois correr rezar para colher cenoura. Vai nascer batata. Portanto, não adianta maltratar as crianças, jogando-as aos semáforos e depois desejar adultos capazes de trabalhar em  empregos formais, capazes de respeitar regras, capazes de viver em sociedade. Largar as crianças nos semáforos significa que a sociedade vai colher adultos amargurados, desiludidos, tristes e raivosos. E não adianta rezar. Não adianta chamar a polícia. Não adianta se fechar atrás de grades ou paredes altas ou dos vidros blindados dos carros. Essas crianças largadas nos semáforos vão crescer e se tornarão esses adultos indesejáveis e indesejados.

FOTO: A arte do grafiteiro sorocabano Rafael Sudário foi homenagem ao menino sírio morto após naufrágio em uma praia da Turquia em 2015, mas ilustra, no meu entender, a falta de futuro das crianças que ocupam nossos semáforos