É assustador acompanhar, de longe, o que acontece com a nossa Argentina

Em outros tempos, onde a questão econômica me era bem mais favorável, consegui ir a Buenos Aires por quase dez anos seguidos, onde ficava de 20 dias a um mês, em férias, andando pelas ruas da capital, conhecendo os pontos turísticos nas primeiras idas e depois indo aos lugares onde os locais vão.

Minha relação com a cidade começou em casa. Minha mãe adorava contar sempre a mesma história sobre a mãe da Angélica, que dá nome ao bairro aqui em Sorocaba (homenagem do pai à filha que descobriu uma fonte de água e dessa fonte se formou a vila e depois o bairro que hoje está na zona norte). Vinda da Itália, ela havia desembarcado em Buenos Aires, o que no começo do século 20 era bem mais chique do que desembarcar em Santos, ao menos na história de minha mãe. Depois, o pai do Hugo, na Vila Santana, fez uma barulheira com rojões em 1978 quando a seleção passava de fase na Copa do Mundo e, menino, me chamava a atenção aquele entusiasmo. Já adolescente me entreguei totalmente aos argentinos quando descobri a literatura de Jorge Luís Borges, depois Ricardo Piglia e hoje em dia sou fã de Juan José Saer e, principalmente, de César Aira.

Diferente do Brasil, que é um país continental e multicultural, a Argentina tem a grande massa da população girando em torno de Buenos Aires (claro que Mendoza, Córdoba, Salta tem suas peculiaridades e lideranças, mas nada comparado com a cosmopolita Buenos Aires).

A carne e os vinhos são atrativos, os bares e cafés outros, a vocação para os jogos de tênis, polo à cavalo, igualmente o futebol (quem tiver chance, experimente ver um jogo do Boca em La Bombonera). Acompanhei o trabalho do grupo local de semiótica, mas é a literatura, porém, o que mais me atrai. Esses interesses me levam a acompanhar quase que diariamente o que acontece por lá. Sempre me chamou a atenção o fato das pessoas irem fazer análise com um psicanalista, o que no Brasil é atualmente um campo em expansão, na Argentina já era uma prática nos idos de 80. Discutir política, que no Brasil vem se tornando hábito nos últimos 5 anos, na Argentina já era desde os anos 70, pelo menos.

O fato é que a Argentina, que no começo do século 20 era uma das principais potências econômicas e culturais do mundo se tornou neste século 21 um país mergulhado numa complexa crise social, de cunho econômico, calcada numa desconfiança em suas instituições de representação. Desde o final dos anos 90, quando o Peso foi desvalorizado frente ao Dólar em mais de 75% há um sistema financeiro paralelo no país, onde as pessoas preferem guardar dólares em casa. A harmonia econômica de um país passa pela confiança de seus habitantes em suas instituições e isso, de fato, não existe há bastante tempo na Argentina.

Falo tudo isso diante do choque que tomei, na manhã de hoje, ao ler na Folha de S.Paulo reportagem da AP sobre o sofrimento de milhões de argentinos: 1) Os bancos congelaram depósitos e armaram barricadas atrás de chapas metálicas quando milhares de manifestantes tentaram, sem sucesso, retirar a poupança. 2) Homens esperam do lado de fora de um local que serve comida de graça para os mais pobres em uma favela, na esperança de obter uma pequena porção de carne e purê de batatas. 3) Em um mercado de trocas na periferia de Buenos Aires, uma mulher tenta convencer outra a trocar alimento pelos minúsculos sapatos de sua neta. 4) “Para fazer rosquinhas há um mês, eu gastava 150 pesos em óleo e sete sacos de farinha. Agora são mais de 400 pesos”, reclamou Gladys Jimenez.

O drama dessas pessoas comuns se concentra na Villa 1-11-14 (foto), favela onde vivem dezenas de milhares de argentinos e imigrantes de países vizinhos. Quem chega de avião ao Ezeiza, na periferia de Buenos Aires, e pega um táxi rumo ao centro, já viu ao seu lado direito essa favela. Que só cresce.

O Brasil vive igualmente suas agruras, inclusive aqui mesmo em Sorocaba. E o presente é obviamente consequência das escolhas feitas no passado, de modo que as escolhas presentes serão determinantes para o que seremos no futuro. Que a Argentina ache seu caminho de retomada da prosperidade social. E o Brasil não se perca nesse emaranhado de desencontros, desilusões e desconfianças. Os argentinos estão lutando!

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