Entenda a ascensão de Jair Bolsonaro e o nosso momento histórico

A reação da sociedade brasileira à denúncia revelada por reportagem publicada no jornal Folha de S. Paulo, de que empresas pagaram pela disseminação de notícias falsas contra o candidato do PT (o que do ponto de vista da lei, daqui um ano, mais ou menos, poderá ter alguma consequência no mundo real, principalmente se a aprovação de um provável governo Bolsonaro estiver baixa) me intriga. E assusta. E preocupa.

Intriga porque fica claro que pouco importa a distinção entre o que é notícia falsa (fake news) e verdade. Assusta, pois nem mesmo a sociedade estar diante de máquinas eficazes e eficientes na disseminação de boatos desperta nos eleitores focados em aniquilar Lula e o PT qualquer sentimento de que isso possa se voltar contra eles próprios num outro momento e circunstância. E, por fim, me preocupa, pois com esse comportamento a sociedade deixou, clara e evidentemente, uma porta aberta ao totalitarismo.

Historicamente me posiciono pelo respeito a Constituição, ou seja, nesse momento do processo eleitoral, portanto, pelo respeito à vontade das urnas. O que se vê no Brasil de hoje é uma escolha democrática pelos ideais propostos por um candidato que manifesta e propaga opiniões extremas em busca de um passado como, revelou ele dias atrás, era o Brasil em 1970. Na sua visão, naquela época, era tudo mais fácil. O Brasil vivia sob a segunda fase do Regime Militar (a primeira durou de 64 a 65, quando Costa e Silva entrou e deu o verdadeiro golpe) com as pessoas podendo andar sem medo pelas ruas, se definiam unicamente entre ser Homem ou Mulher, tinham a opção de Amar o Brasil do jeito que era ou deixa-lo… Só há o presente gerando como consequência o futuro. O presente não gera o passado. Nem na porrada! Nem por bem e nem por mal. Só há chance de futuro.

Tenho sido cobrado por demonstrar que entendo, compreendo e aceito como legal essa ascensão de Bolsonaro. Me acusam de estar compartilhando do fascismo por isso, quando estou vendo a realidade, o resultado da eleição, a vontade da sociedade.

As questões são: por que a sociedade faz essas escolhas? Elas são unicamente do Brasil (O que se vê na Itália, França, Estados Unidos para ficar nestes exemplos, onde ideologicamente se pendeu à direita ou extrema-direita)? O que leva uma horda de jovens brasileiros se manifestarem com orgulho de serem de extrema-direita, lembrando que isso significa ser contrário a posições sociais e favorável a costumes conservadores e a serem liberais do ponto de vista da economia, mesmo que a base para a aplicação dessa meritocracia os deixem absolutamente em desvantagens nessa competição? O que faz com que a sociedade, em todo o mundo, penda para a direita num momento e depois de 50 anos para a esquerda e assim sucessivamente como se viu em 1910 (direita), 1960 (esquerda) e agora 2018 (direita)?

As respostas são absolutamente complexas, mas todas passam pela decepção. A escolha do momento é claramente reflexo da decepção com o modelo anterior.

Essa tem sido a história.

A minha luta será para que essa porta aberta ao totalitarismo seja fechada pelas ações democráticas daqueles que prezam pelo bem-estar da sociedade, da liberdade de expressão e que coloque a educação entre as prioridades do país, portanto, me posicionando contra o discurso preconceituoso, contra o autoritarismo e a intolerância.

Mas até aqui, o meu trabalho alertando para tudo isso, claramente, foi em vão. Um fracasso total. E, enquanto pensava nessa postagem, fui surpreendido com essa mensagem de um amigo, que escreveu: “Deda, dia desses eu estava recordando da entrevista que você fez com os primeiros apoiadores do Bolsonaro em Sorocaba. Recordo que você perguntou algo como ‘é sério mesmo esse apoio?’ Que coisa, não?”

Sim, que coisa!

Quando das primeiras manifestações de 2013, quando os jovens foram às ruas contra o aumento de 20 centavos na passagem de ônibus, me recordo de ter sido um dos primeiros a dizer que aquilo não era simplesmente baderna. Mas um movimento de insatisfação. Nunca imaginei que essa insatisfação levasse ao caminho de hoje, repito, democraticamente escolhido.

Um caminho sem volta, onde abduzo (termo da semiótica que se completa com a dedução e indução) decepções, desilusões, tristeza de um lado; orgulho, satisfação e prepotência de outro; angústia, incertezas e temores de ambos.

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