Entendendo a dor e luta dos negros

A observação de uma mãe, atenta a valores tão caros a ela, sua família e sua origem, fez com que um equívoco, que tanto mais dor poderia causar, viesse a ser corrigido de forma imediata e pacífica pela Secretaria Municipal de Educação de Sorocaba.
O conflito teve origem no livro “As Cores de Mateus”, uma ode ao preconceito racial e que está na contramão do que é estudado sobre racismo estrutural, valorização da cultura e história do povo negro.
Esse conflito é uma oportunidade para se entender essa luta do movimento negro por impedir o avanço do racismo e, principalmente, para reeducar o brasileiro na sua percepção das pessoas de raças diferentes.
Por isso, vale a pena ler o posicionamento da Secretaria de Educação, da Unegro e a observação de uma ativista sobre isso tudo.

Nota Secretaria Educação

Sedu remove material de ambiente virtual: A Secretaria da Educação removeu do seu ambiente virtual o livro “As cores de Mateus”. A exclusão do material aconteceu em razão de uma reavaliação sobre o conteúdo após alerta de uma visitante do site, apontando conteúdo de conotação discriminatória no material.
Após a análise mais detalhada que deliberou pela exclusão do referido material do ambiente digital, a Sedu manifesta o pedido de desculpas à comunidade escolar, e afirma que repudia qualquer ação ou publicação racista ou discriminatória.
O acervo utilizado pela equipe da pasta, nas unidades escolares, conta com vários títulos que valorizam e respeitam as questões étnico raciais, como meio de formação dos estudantes da rede municipal.

Nota Unegro

A Secretaria de Educação de Sorocaba disponibilizou em seu site oficial uma plataforma digital chamada “Vivências de Aprendizagem: Atividades em Família” na tentativa de minimizar os prejuízos na aprendizagem e acompanhamento escolar de milhares alunos da Rede Municipal de Ensino em decorrência do Corona Vírus, pandemia mundial que assola a Humanidade.
Uma das características mais marcante da presença do Covid-19, além da sua letalidade, é sua capacidade de aumentar a relevância de temáticas recorrente do cotidiano como as desigualdades sociais, a violência contra mulher e o racismo estrutural.
Em relação as questões raciais os números mostram que a população mais atingida pelo covid-19, no Brasil e no mundo é a população negra concentrada em favelas, comunidades e periferias expostas a letalidade social, motivada por questões históricas, políticas e sociais estruturantes de nossa sociedade, em primeira instancia pela falta dificuldade de estrutura para cumprir a premissa básica das orientações de proteção, o isolamento social.
O comportamento da sociedade brasileira que reproduz e perpetua o racismo estrutural exposto na falta de medidas emergenciais pensadas para essa população em todos os âmbitos governamentais, também se repete nas instituições de ensino, em Sorocaba não seria diferente.
A plataforma digital “Vivências de Aprendizagem: Atividades em Família” apresenta o livro As cores de Mateus – Maria López Soria, como uma das alternativas de incentivo as atividades para as famílias. (http://educacao.sorocaba.sp.gov.br/wp-content/uploads/2020/04/as-cores-de-mateus-maria-lopez-soria.pdf)
Os objetivos que o livro pretende alcançar como aceitação da própria imagem, o conceito de família biológica e adotiva, valores como respeito e empatia pela diversidade dos indivíduos, estão na contramão do que as publicações de literatura afro brasileira vem ensinando, visto que a publicação é de origem portuguesa, as expressões de sentimentos e opiniões são absolutamente equivocados dentro da realidade da diáspora do povo negro.
As Cores de Mateus é um livro que reforça o estereótipo do “branco como o salvador”, a invisibilidade da mulher negra e o seu exercício da maternidade, além de reforçar vocabulário pejorativo de identificação da raça negra.
As perguntas que ficam para esse episódio são bastante complexas.
A literatura afro brasileira tem inúmeros escritores e escritoras, negros e negras que tratam a questão racial na infância com responsabilidade, pesquisa história e consciência, estandodentro do contexto decolonial da realidade brasileira, nenhum deles serviria ao conceito educativo e pedagógico da plataforma digital criada pela Sedu?
Os profissionais da Rede Municipal de Educação de Sorocaba que são estudiosos das relações étnicos raciais foram consultados na escolha e formatação das atividades e dos livros dessa plataforma?
Onde estão as competências educacionais relacionadas no cumprimento da Lei 10639 que tratam da capacitação e formação dos profissionais da educação?
O movimento negro organizado de Sorocaba, sempre lutou para a implementação de fato da Lei 10639 no município, primou pela pelo debate qualificado da educação para as relações étnicos raciais no ambiente escolar, por entender a importância da educação de qualidade para a formação de cidadãos antirracistas capazes de analises críticas para a transformação do ambiente hostil causado pelo racismo.
Foram inúmeros os esforços para que essas questões fizessem parte do cotidiano da Rede Municipal de Educação, foram inúmeras e exaustivas reuniões e discussões entre o Conselho de Desenvolvimento de Participação da Comunidade Negra, Coordenadoria da Igualdade Racial da Secretaria de Cidadania e Participação Popular, o Conselho Municipal de Educação e a Sedu, fruto dessas articulações foi a realização de dois Fóruns para discutir o assunto, em novembro de 2018 e 2019, com objetivo de contribuir para a construção de conhecimentos teóricos e práticos sobre as relações étnico-raciais.
Fruto também dessas articulações do movimento negro organizado e a sociedade civil foi a criação da Comissão Mista formada pela Sedu e outras indicações de Movimentos / Entidades Sociais, é inadmissível que o acumulo de conhecimento adquirido e todos os profissionais envolvidos nessas ações tenham sido ignorados pela secretaria de educação na adoção dessa publicação.
Nós da Unegro sociedade civil organizada, solicitamos da Secretaria da Educação – Sedu, a retirada imediata do livro as Cores de Mateus do ar, a retratação publica e formal da Sedu para população negra e a retomada das reuniões da Comissão Mista por entender que não pode haver retrocessos no que diz respeito identificação e a valorização da população negra. Direção Municipal Unegro – União dos Negros pela Igualdade.

Observação

Resolvido o impasse entre a mãe e a Unegro e a Sedu, deixo aqui a reflexão de uma amiga, ativista do movimento negro: Interessante, a Sedu desculpou-se com a Comunidade Escolar mas e o pedido de desculpas para a Comunidade Negra? Não merecia também um pedido de desculpa? Por favor, publique este pequeno comentário.
Este pedido, para mim, mostra o tamanho da dor da comunidade. Mostra que a comunidade negra quer a atenção devida que a História lhe negou. Mostra que são parte da comunidade escolar, a quem a Sedu se desculpou, mas são também uma comunidade em luta pela correção do que lhe foi sempre negado.
Essa mesma amiga, quando disse que ação da Sedu havia sido conciliadora, ela chamou a minha atenção: Concordo com você nisso até a página 2. A ação foi realmente rápida e pacífica, mas não foi conciliadora. Primeiro, a ação da Sedu nada propõe em relação a conciliação das partes e segundo porque não assume o erro. A população negra já viveu o tempo da dor, hoje essa comunidade está muito certa ao lutar por seus direitos e reivindicar o cumprimento dela pela via da lei, já que a via do bom senso está obstruída pelo preconceito racial.
Por isso, neste blog, há sempre espaço irrestrito à comunidade negra, sempre a busca de estar entendendo a dor e luta dos negros, uma comunidade que conquistou um outro patamar de auto-estima. Essa comunidade não quer um olhar especial, quer apenas um olhar de respeito e inclusão porque ajudou a construir esse país.

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