Falta de gente mostra que terceirizar a saúde é irreversível

Em resposta a um requerimento do vereador Péricles Régis da Câmara de Vereadores de Sorocaba, sobre as áreas onde mais faltam profissionais da área da saúde no serviço público, a Prefeitura de Sorocaba demonstrou que desde 2013 profissionais estão deixando a função (aposentadoria, exoneração ou mudança de pasta) e jamais foram realizadas contratações desde então para suprir a vaga deixada. Ou seja, a falta de pessoas ajuda a explicar a dificuldade em agendar uma consulta com especialista, realizar um exame diagnóstico ou mesmo conseguir atendimento de urgência e emergência nas unidades públicas de saúde de Sorocaba.

A assessoria de Péricles Régis afirma: Na resposta dada pelo Executivo ao requerimento nº1125/18, são citadas 74 categorias profissionais em atuação na saúde. Péricles perguntou quantos trabalhadores deixaram de atuar (por exoneração, mudança de secretaria ou aposentadoria) e quantos foram contratados em cada área nos últimos cinco anos.

Os dados demonstram que das 74 categorias, apenas 17 possuem o número ideal de profissionais. A categoria com maior déficit é a dos auxiliares de enfermagem. Entre 2013 e junho de 2018 a Secretaria de Saúde perdeu 114 profissionais e não repôs nenhum. Os enfermeiros vêm em seguida, com a falta de 95 funcionários.

Entre os médicos, a situação também é crítica. Na Atenção Básica, há 220 médicos e a necessidade de 500. Na Urgência e Emergência há 99 clínicos e 31 pediatras, quando a necessidade seria de 139 clínicos e 56 pediatras. No requerimento a Prefeitura cita uma lista de 13 categorias (com profissionais como dentistas, pediatras e enfermeiros) que estão com concursos ainda vigentes e com profissionais em lista de espera, porém não dá previsão para contratação.

A apuração de Péricles exibe também a falta de especialistas na Policlínica. Entre os médicos que realizam exame de ultrassonografia, há cinco onde deveria haver 10. São três neurologistas, quando seriam necessários oito. Atualmente há 84 especialistas na Policlínica, quando seriam necessários 122 para atender à demanda. O efeito prático da falta de especialistas é sentido por quem mais precisa. O requerimento enviado à Prefeitura foi motivado pelo acompanhamento da situação de pacientes que aguardam há meses, às vezes anos, por um procedimento. Um dos casos refere-se a uma senhora que teve o útero removido em razão de um câncer. Por determinação médica ela teria que passar por exame diagnóstico de imagem anual pelos próximos cinco anos, porém ela já espera pela realização da ultrassonografia desde 2016.

O vereador faz duas reflexões o problema:

1) “As famílias vivem em desespero, pois o paciente não sabe se uma doença voltou, ou se agravou. Quando o diagnóstico enfim é feito um quadro tratável, pode encontrar-se já avançado demais”, critica o vereador.

2) “Quando a população se revolta nos saguões das unidades de saúde se queixando da falta de atendimento ou acolhimento, é esse déficit que está por trás do problema. Os funcionários que lá estão viram para-raio da revolta, porém estão trabalhando por dois e às vezes não conseguem dar conta da demanda”.

Eu faria uma outra:

3) Ao expor de modo tão cru a falta de médicos e da atual administração, do prefeito Crespo, como a anterior, do prefeito Pannunzio, baterem na tecla que gastam mais de 30% do orçamento com a saúde, quando a lei preconiza 15%, eles deixam evidente na entrelinha de suas falas que a terceirização (ou gestão compartilhada para usar a semântica oficial) é irreversível na cidade. Obviamente que ainda terá funcionário público na área da saúde, mas que a melhora do atendimento necessariamente passará pela contratação de empresas que contratarão os profissionais que farão o atendimento da população.

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