Feliz aniversário tio!

Péricles Pinheiro da Silva completou 93 anos de idade na última quinta-feira, dia 30 de julho, e celebrou a data como manda o protocolo dos dias atuais: com discrição e proteção. Porém sem deixar de apagar as velinhas.

Durante 50 anos, talvez um pouco mais ou um pouco menos, ele foi casado com a irmã do meu pai, minha tia Maria.

Ele foi o primeiro médico da minha vida, ao menos o primeiro que me lembro. Deveria ter uns 5 ou 6 anos e uma febre que não passava fez com que minha mãe me levasse ao consultório dele. Ficava ali na Praça do Canhão, na calçada da rua 15 de Novembro. Era uma portinha estreita e a gente subia uma escada altíssima, ao menos para uma criança era algo sem fim, num corredor escuro e só lá em cima vinha a luz da salinha de espera.

Meu tio Péricles tinha cara de bravo. E eu morria de medo dele. Com o tempo, descobri um dos homens mais justos que conheci. Exigente e correto. Generoso e amoroso do jeito dele.

Do lado da família do meu pai, tio Péricles e tia Maria eram os únicos que visitavam minha casa com frequência. Ele tinha carro, o que no comecinho dos anos 70 era algo para um número bastante restrito de pessoas. Eu me lembro que ele vinha num DKV e a memória me confunde se era cinza chumbo ou verde escuro.

Conforme fui crescendo, percebi que minha mãe também visitava mais a casa dele do que de outras tios e tias, e sempre no período da tarde, ou seja, meu tio Péricles nunca estava em casa e meu paí também não ia junto na visita, ambos estavam trabalhando. Me lembro de que quando chegava na casa dele, minha prima Vani, a filha mais velha do meu tio Péricles, ia até a padaria Cattani e além de pão, leite trazia muitas fatias de presunto. Eu adorava presunto e ainda adoro. Mas naqueles dias, presunto era algo raríssimo. Em casa, em que pese fosse uma casa abastada de comida, pois meu pai era açougueiro, entrava umas fatias de presunto bem de vez em quando.

O que eu mais gostava no meu tio Péricles é que ele conversava com a minha mãe. Não me lembro do assunto, mas que eles se falavam. Ele sempre tinha algo a dizer e sabia ouvir. Naquele mundo, dos anos 70, as mulheres não falavam. As idéias e pontos de vista delas, no máximo, podiam ser ditas entre elas no caminho da igreja, numa conversa de vizinhas na porta de casa. Meu tio Péricles era a frente do seu tempo. Muito a frente, pois ainda hoje são muitas as mulheres que não acham espaço para se posicionarem.

Quando eu fiz 16 anos, coube ao meu tio Péricles e minha tia Maria selarem o meu destino. Eu havia feito Senai e trabalhava na BSI (hoje Bardella). Não gostava daquele serviço. Eu queria ser jornalista, eu queria falar no rádio, escrever no jornal. Eu achava que se as pessoas soubessem das coisas, o mundo poderia ser melhor. Eu tinha a ingenuidade dos jovens, o ânimo juvenil, a vontade e energia dos hormônios adolescentes. Mas meus pais não tinham dinheiro para bancar dois filhos na faculdade. E meu irmão do meio, já estava cursando a faculdade dele.

Me lembro do meu tio Péricles me dizendo: se fazer faculdade é a sua vontade, eu te ajudo. E assim fez. Eu fiz minha parte, passar no vestibular. E ele honrou a palavra dele. Como eu era “de menor” quando entrei na faculdade, minha prima Andréa, irmã gêmea da Adriana, filha do meu tio Péricles, me levou de ônibus para Campinas e fez minha matrícula na PUC, assinando todos os papéis que apenas os adultos, os maiores de idade, podem assinar. E, como mágica, me tornei estudante universitário. Meu tio Péricles pagou as seis primeiras mensalidades, o que foi tempo mais do que suficiente para eu engrenar.

Eu sempre fui grato ao meu tio Péricles e minha tia Maria. Meu tio sempre entendeu que o estudo e o conhecimento mudam o destino das pessoas.

No dia 4 de junho de 1971, data da assembleia que criou em Sorocaba uma cooperativa de médicos, meu tio Péricles era um dos 47 médicos que tornaram-se os fundadores da Unimed de Sorocaba, o plano de saúde mais requisitado nos dias de hoje devido a qualidade do serviço e a estrutura hospitalar que oferece aos associados.

Há dois anos, em 2017, meu tio recebeu a concessão do Título de Cidadão Votorantinense pelos relevantes serviços prestados à cidade. Ele dedicou sua vida profissional, de clínico geral, mas principalmente de obstetra, ao Hospital Santo Antônio, referência em Votorantim. Penso que milhares de pessoas nasceram por intermédio do trabalho do meu tio. Seu filho, também médico, meu primo Péricles Francisco, segue trabalhando na vizinha cidade.

Quando minha prima postou a foto do seu pai que ilustra essa postagem, no grupo da família, me emocionei. Me lembrei que no final do ano eu combinei com o Zé Cômitre, casado com a minha prima Adriana, de ir visitar meu tio. O que nunca eu, e mais ninguém, podia imaginar é que viveríamos isolados por tanto tempo a fim de evitar a disseminação do vírus Covid19. Gosto de pensar que logo tudo isso vai passar. 

Meu tio Péricles é corintiano, dos roxo. Eu sou saobentista e palmeirense por influência dos meus irmãos e pai, mas tinha tudo para ser corintiano. Eu sempre me identifiquei mais com Rivelino do que com o Ademir da Guia; depois com a Democracia Corintiana, no comecinho dos anos 80, um movimento do qual eu tinha admiração. Mas nunca mudei. Domingo que vem, quando Palmeiras e Corinthians voltarão a se enfrentar, na semifinal do Paulistinha 2020, eu vou torcer para o Palmeiras. Mas se der Corinthians, ficarei feliz pela alegria do meu tio Péricles. Afinal, só cheguei até aqui porque quem me ajudou a subir o primeiro degrau foi ele e minha saudosa tia Maria. Nunca me esqueci disso. E serei grato para sempre por isso.

Feliz aniversário tio! Virão muitos ainda.

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