Foge do óbvio, cai no pífio

Fiquei com a impressão que o prefeito Crespo improvisou o seu discurso de abertura do ano legislativo da Câmara de Vereadores de Sorocaba na manhã de hoje. A presença do chefe do Executivo no Legislativo é uma saudável tradição que tem o objetivo de demonstrar ao cidadão a intenção do diálogo entre os dois poderes.

Crespo foi recepcionado pelo presidente Fernando Dini (MDB) e demais parlamentares nesta terça-feira, logo após a leitura bíblica e o Hino Nacional no início da 1ª sessão ordinária de 2019.

O discurso óbvio do prefeito seria dizer aos vereadores que coincidia o começo do ano legislativo com a volta das UPHs (Unidades Pré-Hospitalares) da Zona Norte e Oeste ao atendimento de adultos e crianças.

Em 2016, quando Crespo era vereador, o então prefeito Pannunzio começou a enfrentar um dos maiores desgastes do seu governo ao acatar a ideia do então secretário da Saúde Armando Raggio de que atender exclusivamente crianças de 0 a 11 anos e 11 meses na UPH Zona Oeste e exclusivamente crianças de 12 anos a adultos de qualquer idade na UPH da Zona Norte traria melhora ao sistema e às finanças municipais. Pannunzio viveu por 4 anos o desgaste dessa decisão. Na campanha, Crespo prometeu reverter e aos vereadores, igualmente, se comprometeu a fazer com que qualquer cidadão de 0 anos a todas as idades viessem a ser atendidas nas duas UPHs. E o óbvio seria dizer aos vereadores que estava ali, no início do ano legislativo, para informar dessa conquista deles, vereadores, os que primeiramente ouvem os cidadãos.

Poderia ser um discurso demagógico até, mas seria verdadeiro, afinal ele cumpriu o que disse que iria fazer.

Mas o pefeito ignorou esse fato hoje na Câmara de Vereadores. E preferiu dizer que pretende ampliar o diálogo entre Executivo e Legislativo. “Já assumi alguns compromissos de agenda com o presidente Fernando Dini, o que nunca houve com outros prefeitos”, disse. Segundo Crespo, ele deve reunir-se semanalmente com o presidente da Casa e também com o líder do Governo, vereador Irineu Toledo (PRB). Além de disso, Crespo acatou a proposta do presidente Dini e fará reuniões mensais com a Mesa Diretora da Câmara. Também serão mantidos os encontros mensais com os vereadores na sala de reuniões do Legislativo. “Então teremos a partir de agora quatro momentos de diálogo para chegarmos ao consenso. E, mesmo que o consenso não seja atingido, pelo menos cada uma das partes poderá entender as razões da outra”, finalizou.

O que pretendeu o prefeito com esse discurso?

Posso interpretar como uma cutucada no ex-presidente, vereador Manga, seu desafeto político por ter comandado (quando poderia ter evitado) a cassação do mandato de Crespo por 43 dias. Mas aí me pergunto: para quê cutucá-lo?

Posso, também, interpretar como um carinho no novo presidente, Fernando Dini, seu aliado de primeira hora desde a campanha eleitoral e que amargou com ele todas as mazelas de ter sido contrário à sua cassação. Mas para quê? O que pretendeu o prefeito com essa manifestação? Amarrar Dini a ele? Não existe isso entre os poderes, existe diálogo e harmonia. É isso o que o cidadão deseja: que cada um seja cada um, ou seja, que o vereador faça lei e cobre e fiscalize e o prefeito execute. Que eles se respeitem, mesmo que se estapeiem. Esse é o desejo.

Por isso, entendo que ao fugir do óbvio, o prefeito caiu no pífio em seu discurso hoje na abertura do Ano Legislativo. Pífio no sentido de grosseiro. Por isso, minha suposição de que ele fez o discurso de improviso, pois se tivesse elaborado a sua fala ela teria previsto o que vejo como um discurso deselegante.

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