Gente estranha

Isolamento, vacina, máscara, inteligência são os únicos remédios que podem proteger a vida contra a Covid-19 e não há nada sem vida. Nem economia e nem nada!

Por isso, me assusta ver pessoas, algumas amigas da minha infância, viajando a São Paulo para protestar pela nova fase do Plano São Paulo de combate à pandemia de coronavírus. Ou indo até a frente da 14ª Circunscrição do Serviço Militar, no bairro de Santa Rosália, em Sorocaba, protestar contra essa medida do governador. Ou publicando e compartilhando memes como o de uma criança perguntando para a mãe o que tem para comer e ela respondendo que nada porque o trabalho do pai não é essencial. Ou fazendo brincadeira sobre onde tem um tucano para pagar o seu boleto que vence nesta semana… Há outras manifestações rasas nas redes.

Minhas perguntas para os protestadores são: Por que você, homem branco, dono do seu comércio, que foi protestar neste domingo, acha que sua vida é mais importante do que a do seu funcionário? Por que você acha que um CNPJ é mais importante do que os CPFs que estão contidos nele? Por que o modelo financeiro é mais importante do que a vida?

E minhas perguntas para os políticos são: Por que não há corte nos super salários pagos com o dinheiro dos impostos? Não falo de quem ganha até 15 mil, que é um baita vencimento, mas dos milhares que ganham mais de 20 mil, 50 mil, 80 mil… 100 mil. Por que não se faz uma reforma dessa política salarial distinguindo os que ganham até R$ 7 mil no serviço público (a grande e absoluta maioria dos servidores) dos que ganham acima disso?

Antes da pandemia eu já vinha insistindo de que existem dois tipos de cidadão no Brasil, o que consegue fazer o Ensino Médio e Fundamental numa escola particular, tendo a chance de acesso ao que há de melhor em conhecimento, e o que só consegue ir a uma escola do Estado. Agora, neste ano de pandemia, ficou claro que existe dois tipos de cidadão, o servidor público normal (que se igual a um trabalhador da iniciativa privada) e o servidor público dos super salários, aquele que nunca receberia na iniciativa privada o que recebe do Estado, nunca receberia num país com justiça social. O dinheiro que gira em torno de nossas Casas Legislativas (nacional, estaduais e municipais) é uma afronta ao trabalhador. Elas precisam existir, mas não consumirem tantos bilhões como fazem.

Mas os protestos são contra medidas que querem salvar vidas, são protestos a favor da manutenção da estrutura social que consome o bolso do trabalhador normal. São pessoas que se julgam éticas, honestas e corretas, mas absolutamente incapazes de pensar numa equação simples: se cada um se vê individualmente como ético porque no conjunto, quando se somam todos os indivíduos, o que se vê é uma gente corrupta? Por enquanto, a resposta é: culpa é do outro.

A verdade é que ninguém se mostra capaz de olhar para dentro de si e verificar se, de fato, são esse poço de ética que apregoam quando vão à porta do quartel como fizeram domingo aqui em Sorocaba. Que medo é esse de ver o que estará refletido na água que está lá no fundo?

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