Há 80 anos, o Brasil não iniciava uma copa com um negro como capitão

Quando o Brasil entrou em campo domingo passado para sua estréia na Copa da Rússia contra a Suíça (jogo pífio que terminou em 1 a 1) uma curiosidade não poderia deixar de ser notada: Marcelo, o lateral esquerdo, que brilha no Real Madrid da Espanha, dono de uma cabeleira extravagante e vistosa que é motivo de elogios para muitas jovens, como ouvi hoje num programa de rádio, tinha a braçadeira de capitão da seleção. A última vez que o Brasil começou uma copa com um capitão negro foi em 1938 com Leônidas da Silva, chamado de Diamante Negro, jogador do São Paulo, que acabou dando nome ao famoso chocolate ainda hoje bastante comercializado.

O capitão é escolhido por sua liderança dentro de campo. Ele é uma espécie da voz do técnico enquanto o jogo rola. Seu maior protagonismo acontece quando uma seleção ganha a Copa e cabe a ele receber e levantar o troféu. O capitão não é o craque, veja que Pelé (o maior jogador do mundo) se alguma vez foi capitão da seleção foi exceção. Num ambiente onde se luta cada vez mais por direitos, reconhecer a liderança de um negro e creditar a ele esse status na seleção brasileira não ée pouco.

Lembre os capitães do Brasil

A lista conta com nomes que ficaram consagrados por erguer a taça, como Bellini, Mauro, Carlos Alberto Torres, Dunga e Cafu. Nenhum negro.

Copa de 1930 – Preguinho, que além de jogar futebol também nadava e participava de corridas, defendia o Fluminense e foi o autor do primeiro gol do Brasil na história dos Mundiais.

Copa de 1934 – O meia Martim era um jogador voluntarioso e com grande espírito de liderança. O gaúcho foi convocado pelas suas boas atuações no Botafogo.

Copa de 1938 – Martim também foi capitão do Brasil em 1938, no Mundial da França. Mas naquela ocasião dividiu o posto com Leônidas da Silva, grande atacante e estrela da equipe. Ele defendia o Flamengo e deu origem ao famoso chocolate Diamante Negro

Copa de 1950 – Augusto foi um dos maiores zagueiros da história do Vasco, integrando o histórico time das décadas de 50 e 40. Na Seleção Brasileira, como capitão de 1950, recebeu críticas como todo o grupo, principalmente após o Mundial, quando revelou que já fazia planos de como ergueria a taça. O Brasil perdeu para o Uruguai a final por 2 a 1.

Copa de 1954 – O volante Bauer foi o capitão brasileiro no Mundial de 1954 na Suíça. Foi o único jogador da seleção de 1950 convocado para o Mundial seguinte. Jogava pelo São Paulo e tinha o apelido de “O Monstro”

Copa de 1958 – O primeiro capitão campeão do mundo pela Seleção Brasileira, Bellini ergueu a taça em um gesto que ficou imortalizado. Até hoje tem uma estátua na entrada do Maracanã, que mesmo não mostrando seu busto, lhe serve como homenagem. Defendia o Vasco na época do Mundial.

Copa de 1962 – Mauro Ramos de Oliveira marcou época com a camisa do Santos no lendário time de Pelé, Coutinho e Pepe. Zagueiro de habilidade e voluntarioso, conseguia aliar garra e talento. Foi um dos líderes do elenco que conquistou o Mundial no Chile.

Copa de 1966 – Já veterano, defendendo o São Paulo, Bellini também foi capitão em 1966 em uma das piores campanhas da história da Seleção Brasileira, eliminada na fase de grupos. Naquele Mundial dividiu o posto com outro zagueiro, Orlando Peçanha, então no Santos.

Copa de 1970 – Muitos foram capitães. Alguns ergueram a taça. Mas apenas Carlos Alberto Torres foi reconhecido com o apelido de Capita até o fim de sua vitoriosa vida. Defendeu grandes clubes, como Botafogo e Fluminense. No Mundial de 1970 jogava pelo Santos e marcou o último gol do Brasil na goleada de 4 a 1 sobre a Itália na final.

Copa de 1974 – Três jogadores se revezaram no posto de capitão em 1974. São eles Wilson Piazza, do Cruzeiro, volante que atuou como zagueiro na conquista de 1970; Luís Pereira, que se iniciou no futebol no São Bento e nessa copa estava se transferindo do Palmeiras para o Atlético de Madrid, e Marinho Peres, então zagueiro do Barcelona, nascido e criado em Sorocaba, no famoso Peladão do Scarpa onde hoje está o Sorocaba Shopping. Luís Pereira, negro, foi capitão no segundo jogo.

Copa de 1978 – A liderança também foi dividida na Copa do Mundo de 1978 na Argentina. O goleiro Emerson Leão, então no Palmeiras, e o meia Rivelino, do Fluminense, se revezaram com a braçadeira.

Copa de 1982 – Um dos responsáveis pela Democracia Corintiana, o Doutor Sócrates era conhecido pelo seu espírito de liderança e por um raciocínio muito acima da média no mundo do futebol. Foi ele o responsável por levar a braçadeira de capitão do time que encantou o mundo em 1982.

Copa de 1986 – O zagueiro Edinho defendia as cores da Udinese quando disputou a Copa do Mundo de 1986 como capitão da Seleção Brasileira. Marcou inclusive um dos gols na goleada de 4 a 0 sobre a Polônia nas quartas de final. Aliava raça com habilidade.

Copa de 1990 –Ídolo do Fluminense, Ricardo Gomes era zagueiro do Benfica quando foi capitão na Copa do Mundo de 1990 na Itália. Não conseguiu liderar o grupo, que tinha vários problemas de relacionamento. Sua apatia gerou a crítica de alguns torcedores. Mas era um dos zagueiros mais habilidosos de sua geração.

Copas de 1994 e 1998 – Após ser rotulado como um dos responsáveis pelo fiasco em 1990, o volante transformou a “Era Dunga” em algo positivo. Parecia banido da Seleção Brasileira quando ressurgiu no meio das Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1994. Logo na primeira fase, quando Raí foi barrado, assumiu a braçadeira de capitão. Ativo, colaborou para controlar os rompantes de Romário e merecidamente ergueu a taça em 1994, ano em que defendia o Stuttgart. Seguiu como capitão até a Copa do Mundo de 1998, a sua última. Naquele ano já estava no futebol japonês, no Jubilo Iwata.

Copas de 2002 e 2006 – Em 2002 Cafu, que jogava na Roma, era um dos homens de confiança de Luiz Felipe Scolari. Com um fôlego invejável, era elogiado pelo espírito de grupo e por flutuar bem dentro do elenco. Seguiu no posto em 2006, quando já atuava pelo Milan. Foi o último capitão campeão do mundo.

Copa de 2010 – Poucos jogadores apresentavam em campo o espírito de liderança que Lúcia destilava por onde passava. Em algumas ocasiões chegou a ser acusado de passar dos limites por gritar com companheiros. Campeão em 2002, assumiu a braçadeira em 2010, já veterano e defendendo a Inter de Milão.

Copa de 2014 – Thiago Silva foi o capitão escolhido para a Copa do Mundo de 2014. Jogando no Brasil, ficou marcado por seu desequilíbrio emocional, chegando a chorar antes da disputa de pênaltis com o Chile nas oitavas de final. Fou punido com cartão amarelo diante da Colômbia nas quartas e ficou suspenso da semifinal contra a Alemanha. A história poupou o zagueiro do PSG de ser o capitão na humilhante goleada de 7 a 1 sofrida para a Alemanha. O posto naquele jogo ficou com o outro zagueiro, David Luiz, do Chelsea.

Copa de 2018 – Marcelo no jogo da estréia. Não está confirmado se ele segue neste posto na sexta-feira quando o Brasil pega a Costa Rica.

As informações sobre os capitães estão no site: maisqueumjogo.com.br.

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