Humor ácido, inteligência afiada e rapidez de raciocínio

Hoje morreu um homem importante. Fluente em quatro idiomas (inglês, italiano, espanhol e francês); grande conhecedor da obra de poetas portugueses como José Régio e Fernando Pessoa; sócio titular da Academia Sorocabana de Letras, onde foi eleito por unanimidade, ocupando a Cadeira nº 1, que tem como patrono Euclides da Cunha, sucedendo o jurista e historiador José Aleixo Irmão, sócio-fundador e primeiro presidente da instituição; Engenheiro Civil pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo; pós-graduado em Engenharia de Transportes pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo; formado em Engenharia de Sistemas de Transportes pela Faculdade de Engenharia Industrial e em Transportes nos Estados Unidos (Ohio State University); um apaixonado pela Matemática o que levou-o a escrever seis livros: “Dos nove e outras matemágicas”, “Curiosidades do diabo matemático”, “O número de ouro e outras histórias”, “Histórias da matemática para curiosos”, “Um sexto dos 666 problemas do Diabo matemático” e “Só matemágicas”. Um homem que atuou na iniciativa privada e no serviço público, tendo sido secretário municipal e presidente da Urbes, Trânsito e Transportes.

Hoje morreu Adalberto Nascimento, o Dal.

Muito se vai falar dele nas dezenas de homenagens que já estou imaginando lhe serão prestadas pela Prefeitura, Câmara de Vereadores, Associação dos Engenheiros, Academia de Letras, amigos.

Eu quero falar do que havia por trás desse homem importante, por trás desses papéis tão bem desempenhados por Dal. Quero falar do Dal que conheci no Bar do Fundão (um bar onde se entrava convidados do dono do local, o príncipe Zezo Lanaro que tão cedo nos deixou, ou convidado por algum dos seus convidados), que conheci no lendário Bar Depois, na avenida Eugênio Salerno, quando era tocado por Nilo e Fernandinho, que conheci nas trocas de mensagens e telefonemas, em dezenas de entrevistas.

Dal era encantador por seu humor ácido, inteligência afiada e rapidez de raciocínio. Uma vez, gargalhei muito quando ele contou uma de suas hilárias histórias. Ele se gabava que estava com suas faculdades mentais em perfeita ordem e a prova tinha acontecido na noite anterior. Ele estava na cama, deitado, sua esposa ao lado e, então, ele começou a arregalar os olhos, a respirar apressadamente e pediu socorro à esposa dizendo que estava tento alucinações. Ela, que o conhecia tão bem, o acalmava: Pare Adalberto, você só bebeu um pouquinho a mais. Não, não eu berrava – contava a nós que ficávamos vidrados em suas histórias – estou tendo sim alucinações: Acabei de ver um rato na cabeceira dos pés da cama. E sua mulher, que estava entretida com um livro na mão, de repente deu um berro e se encolheu: tem um rato no pé da camaaaa… Ufa…dizia Dal… não estou tendo alucinação nenhuma. E dai Adalberto, o que você fez? Nada, virei pro lado e dormi, afinal tinha tomado umas a mais. E sua mulher Dal? Ah, ela ficou desesperada com o ratinho e resolveu tudo no outro dia, chamando esses especialistas em matar pragas. Era uma risada só. A alegria está no texto que mal e porcamente aqui reproduzo, mas evidentemente que estava na forma como ele nos contava.

Dal é desses sorocabanos especiais assim como foram, e tão cedo morreram, o professor Wlademir dos Santos com quem tive o privilégio de conviver por cerca de cinco anos, diariamente, fosse na OSE ou Colégio Uirapuru; e Marcos Cézar, o Ary Madureira, autor de milhares de textos de Chico Anysio, com quem cruzei, certamente, menos de uma dezena de vezes na vida no antigo bar Armazém, na Afonso Vergueiro.

Dal era diplomado pela Escola Politécnica da USP, mas formado pela Casa do Politécnico, a famosa Cadopô, que pode ser conhecida no livro “Causos da Casa do Politécnico – Contados por seus ex-moradores”, uma obra coletiva de 463 páginas, recheadas de histórias vivenciadas e escritas por ex-alunos que não apenas cursaram a universidade, mas também se educaram para a vida na famosa Cadopô, como ele.

Dal era autoridade, mas vivia perto do povo, sem frescuras, como diz o verso a seguir de Fernando Pessoa, um dos seus preferidos:

Não sou nada.

Nunca serei nada.

Não posso querer ser nada.

À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

O corpo de Adalberto Nascimento foi velado na Ofebas e sepultado no Cemitério da Saudade, às 15h30.

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