Morre Raquel Taraborelli, a Monet brasileira, a D’Artagnan sorocabana

Raquel Ferreira de Oliveira Taraborelli descansou. Seu corpo foi velado desde cedo e sepultado no final da tarde de hoje no Cemitério Pax em Sorocaba.

Sua passagem nesta vida está para sempre marcada para a história nas suas telas de onde saem luz e cores que fizeram-na reconhecida internacionalmente como a Monet brasileira com seu impressionismo contemporâneo de pinceladas da natureza e da arte.

Pinceladas que começaram a ser dadas em 1975, quando ela tinha apenas 17 anos, e começaram a se consagrar em 1987, quando Pietro Maria Bardi (o grande idealizador do Masp – Museu de Arte de São Paulo), como jurado no Salão de Artes Plásticas de Piedade, concedeu-lhe a Medalha de Ouro.

Nessa época, eu já era foca na página de Artes e Espetáculos do jornal Cruzeiro do Sul que um ou dois anos depois viria a se tornar o Mais Cruzeiro que ainda hoje existe no centenário jornal sorocabano. Me lembro que foi aí que começou minha relação de amizade com Raquel.

Ela era uma espécie de quarto elemento de os três mosqueteiros das artes sorocabanas.

Havia naquela época em Sorocaba, em meados da década de 80, uma ânsia por cultura na cidade e um grupo de amigos de juntou e formou o Cemso (Centro Musical Sorocabano). Margareth Lamy (de quem perdi totalmente o contato e soube hoje que ela faleceu há seis anos); Cleide Riva Campelo (pesquisadora de semiótica e coordenadora do grupo Tutu-Marambá) e Marco de Almeida (produtor cultural dos grandes nomes da MPB) eram o equivalente aos “inseparáveis” Athos, Porthos e Aramis. Mas assim como os três mosqueteiros havia também D’Artagnan, e aos três se juntava Raquel que herdou de Carlos o sobrenome Taraborelli, de quem nunca quis se separar.

Me lembro de noites memoráveis promovidas por eles. Noites com muito jazz, com música brasileira de qualidade ímpar, me lembro de chá de cidreira e conversas que não se encontrava nos bares da época.

O Cemso era uma espécie de gueto do bem. Um gueto da alta cultura. Um lugar onde só se podia ir quando se era convidado ou levado por alguém. Sorocaba deve muito a Margareth, Cleide, Marco e Raquel. A Raquel que se foi tão cedo na manhã de hoje.

“Todos os dias, quando chego ao meu ateliê, realizo um pequeno ritual: rego as plantas (elas fazem parte do meu dia-a-dia), limpo os pincéis, passeio pelo jardim, olho o céu, folheio livros e revistas procurando situações que toquem o coração. Pode ser um buquê de flores na janela, uma cadeira no jardim numa tarde ensolarada, uma foto de viagem. Enfim, algo que funcione como uma passagem para um mundo de sensibilidade. Muitas vezes, sem perceber, começo a mexer nos pincéis e tocar a tela. A partir desse momento, entro na cena e perco a noção do tempo. Vivencio cada detalhe, cada emoção: sinto o calor do sol, o perfume das flores, a brisa do final de tarde. E o trabalho se transforma em uma fonte de prazer. Talvez a pintura tenha sempre me fascinado pela sensação de liberdade que ela me proporciona. É quase uma brincadeira entre cor e espaço, onde posso tocar e criar. Outro aspecto que me faz gostar do meu trabalho é a relação do artista, por meio de sua obra, com o público: emoção inexplicável, mas muito gratificante”, disse Raquel Taraborelli em entrevista com Eliane Contreras.

Alexandre Garcia, o famoso jornalista, até recentemente na TV Globo, escreveu sobre ela: “(…) Você pode olhar suas telas e dizer que delas saem a luz e as cores; que o sol e as sombras nos transmitem alegria e a vontade de entrar nas cenas. Você pode até adivinhar a hora do dia que está ali, à sua frente, pululando de vida. Você pode ver o ar. É a percepção aguçada pelo gosto e pela paleta de Raquel Taraborelli. Boa Viagem!”

“Cor é o que me interessa e me desafia, é o que tenho aprendido a ver e sentir. Gosto de flores e elas estão sempre presentes no meu trabalho, me surpreendendo com suas formas e cores harmoniosas… Gosto da luz, do impressionismo de Monet…”, escreveu Raquel em um de seus catálogos.

“É possível observar que, mesmo com os temas tão simples abordados por Raquel Taraborelli, suas obras reacendem uma luminosidade complexa e difícil de ver em outros trabalhos. E isso se deve à sua técnica apurada e à consciência visual de sua obra,” escreveu o jornalista Gay Sang.

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