Morreu Clóvis Rossi, conquistador de mentes e corações

Sempre desperto primeiro do que minha mulher, mas hoje foi diferente. Ela tinha a voz grave e me anunciou a morte de Clóvis Rossi.

Não era propriamente uma amiga dele, assim como eu nunca fui no sentido estrito da palavra, alguém que você conhece e conhece você e um sabe ao menos algumas coisas sobre o outro. Nem meu. Mas era amigo de nós dois.

Minha mulher, Deise Machado, é produtora de jornalismo do programa “Olhar Sobre o Mundo” da TV Brasil, da EBC (Empresa Brasil de Comunicação), onde ela entrou via concurso público. E em novembro do ano passado, o convidado para conversar com o apresentador Moisés Rabinovic (outra referência do jornalismo brasileiro) foi Clóvis Rossi. Foi a única vez que ela encontrou o mito, cujo comportamento despojado, sem nenhum gesto exibicionista ou de estrela, lhe chamou a atenção. Além, é claro, das observações inteligentes e do humor elegante. Definições dela.

Estive apenas uma vez na presença de Clóvis Rossi, num dos vários congressos em que tinha o hábito de participar, quando eu ainda me animava com a profissão e considerava importante, socialmente, esse ofício tão maltratado no Brasil. Uma vez, uma empresa de um amigo sorocabano foi alvo de reportagem de Clóvis Rossi, publicada no caderno de Economia da Folha de S.Paulo. E esse amigo entendeu que a matéria não mostrava os fatos do modo que ele via que tinha ocorrido. Estava indignado. Eu expliquei o que é e como se faz jornalismo e, principalmente, que o autor era alguém acima de qualquer suspeita. As pessoas em geral, alvo de reportagem que não lhe favorece, reagem culpando a “janela pela feiura da paisagem”, termo que ouvi pela primeira vez do jornalista Geraldo Bonadio. E meu amigo fez isso, culpou Clóvis Rossi. Pelo respeito e admiração que tenho por Rossi, decidi lhe telefonar. Me atendeu como se ele fosse um simples mortal. Agradeceu minhas informações. E tempos depois, numa outra reportagem, recolocou os fatos de um modo mais amplo, num contexto que manteve meu amigo bravo, porém entendendo a razão jornalística do fato ter se tornado notícia num dos mais importantes jornais do país.

Essa proximidade com o leitor de Clóvis Rossi, que vivi como mostrei acima, foi confirmado por relato hoje num dos grupos de WhattsApp pelo jornalista Fábio Jammal, que depois de uma década trabalhando fora, está de volta a Sorocaba. Ele contou: Eu gostava muito do Clóvis Rossi e vivia mandando email para ele comentando as suas colunas. E o legal é que ele sempre – sempre – ele respondia, em pouco minutos e com textos longos. Era um cara que valorizava seus leitores. Isso, por si, mostra o quanto Clóvis Rossi era especial. Imaginem que são milhões de leitores em todo o Brasil do seu trabalho. E digamos que centenas lhe escrevessem. Dar atenção a todos é algo que faz dele o que ele representa para o jornalismo brasileiro.

Meu primeiro contato com Clóvis Rossi foi cercado de absoluta desconfiança. No final dos anos 80 eu estava na faculdade de jornalismo, era militante no centro acadêmico, e tinha como referência a coluna São Paulo que ainda hoje está no mesmo lugar na página 2 da Folha de S.Paulo. O dono daquele espaço era Cláudio Abramo, que morreu. E coube a Clóvis Rossi substituí-lo naquele espaço. Não demorei muito tempo para me render ao talento e humanismo dessa referência do jornalismo.

Quem abrir qualquer portal hoje vai encontrar a biografia de Clóvis Rossi, desde o profissional exemplar até a pessoa ímpar e humana. Desde que jogou basquete (sua altura era 1.98m) até sua paixão pelo Palmeiras.

Minha intenção aqui é deixar com vocês, meus leitores, minha visão bem particular do que Clóvis Rossi significou em minha formação: “Jornalismo, independentemente de qualquer definição acadêmica, é uma fascinante batalha pela conquista das mentes e corações de seus alvos: leitores, telespectadores ou ouvintes. O dever fundamental do jornalista não é para com seu empregador, mas para com a sociedade. É para ela, e não para o patrão, que o jornalista escreve. É para o leitor.”

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