Morreu um padre de humor refinado e alegria contagiante

Assim que a Arquidiocese de Sorocaba comunicou o falecimento do Padre Inácio Kriguer, que no dia 1º de dezembro iria completar 73 anos de vida, uma comoção tomou conta da comunidade católica, especialmente daqueles que tiveram algum contato com ele em Sorocaba, Votorantim, Boituva, Iperó e Piedade.

Não faltaram palavras de homenagens se referindo a ele com um símbolo da bondade, humildade e sabedoria que, na hora da morte, saem da boca das pessoas transformando em “santo” qualquer um que tenha morrido. Mas esse, definitivamente, não era o caso do padre Inácio.

Ordenado presbítero aos 15 de agosto de 1975, nos anos 80 padre Inácio foi lecionar Filosofia na Escola Estadual Professor Aggêo Pereira do Amaral, numa época em que a Ditadura Militar havia acabado com o ensino dessa disciplina na grade curricular e o clima de medo dos anos de chumbo ainda pairava em nossa sociedade.

Sua coragem em fomentar as pessoas a pensarem sobre si, sem nunca deixar de olhar para o próximo, de entender o que faz de alguém um miserável, calou fundo numa geração de crianças.

Essa mesma preocupação padre Inácio levou ao altar, em cada homilia, sempre preocupado em explicar o texto do Evangelho aos olhos do nosso tempo.

Ao contrário dos antigos padres, que para serem respeitados se postavam de sisudos, padre Inácio cultivava no seu dia a dia a alegria de viver. O que fica claro no depoimento do casal José e Sônia: “Fica a lembrança deste Homem de Deus na sua simplicidade e as peripécias das nossas viagens para o Sul, em sua agradável companhia, quando a Sônia foi confundida com sua irmã em boa parte de uma das viagens”.

Mais que isso, padre Inácio tinha o que apenas os grandes homens têm, um humor refinado, como mostra este relato do padre Alex: “Neste domingo (18/11/12) o padre Inácio sofreu 40% de infarto quando estava co-celebrando a missa da manhã na Paróquia do Divino. Foi socorrido e agora seu estado de saúde é estável. O padre se encontra internado no hospital Santa Lucinda e está em observação na UTI (48 horas). Conforme o próprio padre Inácio disse, ele está bem, mas não é pra falar que ele está muito bem, senão já é mentira”.

Só quem ri de si próprio, sabe o seu tamanho no universo. E padre Inácio viveu assim, dentro da sua fé e religiosidade, sem nunca ter se esquecido de onde veio.

A sua origem

Padre Inácio viveu em Votorantim de forma bem simples a sua infância ao estudar no grupo escolar Pereira Ignácio, nadar em lagoas, curtir os amigos e brincar tranquilamente em áreas onde hoje é o Parque do Matão.

“A família de minha mãe é de Sorocaba, já a de meu pai é de origem alemã. Meu avô veio fugido daquele país, se instalando na fazenda Ipanema e ali nasceu meu pai. Nos anos 20 vieram morar em Votorantim, precisavam de trabalho e a lavoura não conseguia sustentar a família que era numerosa. Quase todos os tios e tias trabalharam na fábrica de tecidos Votorantim. Meu pai ficou pouco tempo na empresa, não havia se acostumado a permanecer longo período em local fechado.

Fez um curso e se tornou alfaiate. Oscar Kriguer, o Kaico, atendia na rua José Thomaz da Costa, na época rua Vossoroca” conta o padre.

Inácio cresceu, fez a opção pelo sacerdócio e em agosto de 1975 era ordenado. Após uma rápida passagem por Sorocaba, foi solicitado que viesse a Votorantim na condição de vigário, em auxílio ao pároco João Santucci. Aqui ficou aproximadamente quatro meses. Já o segundo momento em que trabalhou na cidade foi de 1979 a 1983. Ao chegar na função de pároco, encontrou padre Tadeu Rocha Moraes, recém-ordenado, que era vigário junto ao então pároco Mário e prosseguiu o auxiliando.

Nessa segunda passagem em Votorantim conviveu com a enchente que derrubou a antiga igreja São João Batista. “Naquele dia, 6 de fevereiro, havia feito um casamento nessa igreja, à tarde tinha acabado de celebrar na comunidade Nossa Senhora Aparecida, no Vossoroca e quando me preparava para ir até a Matriz São João Batista, na entrada da cidade, alguém disse que não ia dar para ir, que a enchente era grande e as águas estavam chegando à porta da Matriz, já na antiga igreja as águas haviam subido acima das portas. Foi trágico” destaca padre Inácio.

Essas e outras passagens estão no volume 3 do Livro “Nossa História Nossa Gente” de Cesar Silva, jornalista, gestor público, membro da Academia Votorantinense de Letras, Artes e História, escritor e apresentador de TV.

Enterro

O velório do padre Inácio aconteceu na Comunidade São Benedito, na Vila Carvalho, e amanhã, terça-feira, depois da  Missa de Corpo presente, às 9h, será sepultado no Cemitério da Saudade, na Vila Santana.

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