Nenê, o dândi que ajudou a mudar a história da imprensa sorocabana

Morreu na madrugada de hoje, aos 90 anos, Francisco Ramos de Andrade Filho, o único Francisco de Sorocaba que não virou Chico, Kiko, Quinho… e se eternizou na história da cidade como Nenê Andrade.

Em 1964, o endividado jornal Cruzeiro do Sul – fundado em 1903 e um dos pilares dos ideais republicanos e de combate ao Império – é vendido pela família Freitas a um grupo de 21 amigos, todos membros da Loja Maçônica Perseverança III, que doaram sua parte para a Fundação Ubaldino do Amaral, essa sim a proprietária do jornal e desde então, há 55 anos, gerenciada pela PIII.

O endividado jornal de então, de baixa circulação, foi reconstruído até se tornar uma referência em termos de jornal impresso em todo o Brasil, chegando a ter uma tiragem diária de quase 50 mil exemplares. Importante sempre lembrar que um jornal é formado por uma tríade de igual importância e seu sucesso está ligado ao equilíbrio dessas forças: Jornalismo, Publicidade e Tiragem (Circulação).

E essa reconstrução do Cruzeiro do Sul, que significou uma guinada na história da imprensa sorocabana, passa por Nenê Andrade, assim como passa pela história recente de Sorocaba.

Diante do declínio da indústria de fiação e tecelagem e da grande perda de receita provocada pela emancipação de Votorantim no final dos anos 60, Sorocaba não se sustentava apenas com a indústria ferroviária.

Era preciso um novo processo da industrialização da cidade e ao longo dos dois mandatos do então prefeito Armando Pannunzio, entre 1964 e 1969 e 1973 a 1977 – período que coincide com o golpe militar – isso acontece a partir da existência de um programa do governo estadual para encorajar a interiorização das indústrias concentradas na capital. A excelente situação logística de Sorocaba (a rodovia Castello Branco acabava de ser inaugurada) e a construção da rodovia Senador José Ermírio de Moraes (Castelinho) criaram condições para essa guinada. Pannunzio designa a Laelso Rodrigues a presidência da Comissão Municipal de Desenvolvimento Industrial, um cargo sem remuneração, e após 4 anos Sorocaba tinha consolidada sua Zona Industrial, onde à época mais de 70 empresas se instalaram, criando 42 mil empregos.

Onde achar tanto trabalhador?

É aí que entra na história Nenê Andrade. Ele tinha a incumbência de colocar em pé a Publicidade do Cruzeiro do Sul e passou a visitar as empresas que aqui acabavam de se instalar e vendia páginas e mais páginas de classificados no Cruzeiro do Sul. O jornal virou uma potência econômica e Nenê, que era pobre, ficou rico.

Mas Nenê era um tipo especial. Dinheiro, para ele, é para ser ganho e gasto. Pelo menos três frases feitas, tipo de para-choque de caminhão, explicam bem a sua personalidade no começo dos anos 70, quando ele beirava os 40 anos: 1) “Se eu morrer amanhã vou ter guardado dinheiro pra quê?” 2) “Mês que vem vai ser diferente!” 3)“A vida é uma só, para que guardar!”

Os diretores do Cruzeiro do Sul tentavam fazer Nenê de Andrade a mudar de pensamento, a guardar dinheiro. Ele, então, foi convidado e passou por toda seleção e se tornou membro da Loja Maçônica PIII.

Mas, como diz o velho ditado, não se endireita pepino velho.

Nenê Andrade, com dinheiro no bolso, passou a levar a vida como um dândi (tipo de homem de estilo próprio, mas que não necessariamente pertence à nobreza).

Assim foi Nenê, um homem que escolheu viver a vida de maneira intensa, de prazeres, livre. Um amigo carismático. Parecia o personagem da série “How I Met Your Mother”, onde ninguém sabe qual é seu verdadeiro emprego dele e ele diz que seu trabalho é muito “difícil de explicar”.

Nenê, era assim. Numa época em que o trabalho significava produzir algo palpável (padeiro fazia pão, mecânico arrumava máquinas, sapateiro, o sapato…) ele vendia espaço dentro de páginas do jornal. Nenê fazia relacionamentos. Se ainda hoje é difícil explicar essa profissão, imagine 50 anos atrás.

Nenê foi o grande host (que significa hospedeiro, anfitrião, e, em informática, é qualquer máquina ou computador conectado a uma rede, podendo oferecer informações, recursos, serviços e aplicações aos usuários ou outros nós na rede) das décadas de 60, 70 e 80 de Sorocaba. Nenê arrumava casa para as pessoas que chegavam atraídas pelo boom industrial, escola para seus filhos, conta em banco…

Sempre brincalhão, Nenê vivia com o sorriso no rosto, nunca ficava nervoso, embora chegasse a deixar as pessoas próximas loucas de nervo pelo seu jeito que se resume no refrão da música de Zeca Pagodinho: “Deixa a vida me levar, vida leva eu…”

Nenê sempre falou o que queria e por isso causava polêmica e, por isso, tinha muitos amigos na mesma proporção de desafetos.

Foi falando o que queria que Nenê ajudou a construir o Clube de Campo Sorocaba, uma sociedade civil sem fins lucrativos, políticos ou religiosos que nasceu pelas mãos e articulação dele e Paula Santos, que reuniram, no início da década de 50, os 181 membros fundadores – a maioria das principais famílias que residiam no município à época – para a criação da sociedade que adquiriu os terrenos onde se localiza a atual instituição. Em 8 de dezembro de 1952 aconteceu a primeira assembleia de organização e fundação do Clube de Campo. Algum tempo depois, os sócios decidiram pela unificação destes terrenos, o que se configurou no atual formato de participação associativa que se vê hoje.

Foi falando o que queria que Nenê desagradou a poderosa Loja Maçônica Perseverança III e se viu convidado a deixar a instituição. Mas nessa época o “gene” da irmandade já estava impregnado nele e, assim, nas palavras de um dos seus irmãos de loja, ele se tornou um empreendedor maçônico indo parar na Loja Manchester Paulista até chegar a Loja Maçônica São João onde estava até hoje.

Nenê, com quem tive a oportunidade de conviver no período em que fui editor-chefe do Cruzeiro do Sul, e recentemente encontrando-o em jantares informais da loja São João, tinha um mantra: “O importante é ser feliz!” E isso, num ambiente de regras e segredos, numa sociedade onde os velhos ficam esquecidos num quarto ou asilo, nem sempre é bem compreendido. Aos 90 anos, Nenê estava “vivo”, na ativa.

O corpo de Nenê está sendo velado na Ofebas, de onde o féretro sairá amanhã (dia 12 de dezembro) às 10h30 rumo ao Cemitério Memorial Park, onde será sepultado.

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