Nunca mais sinuca, nunca mais beliscar o pão ao redor da mesa

Havia um clima de alegria, confiança e harmonia no Salão de Sinuca do Freitas, no centro de Sorocaba, no começo da noite de terça-feira, dia 18 de junho.

A harmonia era da expectativa do jogo marcado para 19h30 entre Renan, o mais jovem e brilhante jogador de sinuca de Sorocaba, que encarou o desafio de Brinquinho, um jogador que perambula de cidade em cidade atrás de um bom desafio.

A confiança era na amizade dos jogadores sorocabanos, pois a notícia do jogo atraiu gente da velha guarda, gente boa de sinuca, mas que deixou o jogo pelo caminho nos desencontros da vida.

E a alegria tinha um motivo só: Paulo Dias, ícone da sinuca no Brasil (prometo que um dia conto a história dele), que há anos estava longe de um salão, acabava de entrar no  Freitas e sua presença iluminou cada um dos jogadores que ali estavam, mas era a boa nova que ele trazia que emanou de alegria naquele instante: Paulo Roberto tinha deixado a UTI, teve uma boa melhora e o médico o transferiu para o quarto e logo, logo ele deverá ter alta.

Houve uma emanação de boa energia. E Brinquinho, o desafiante, não foi páreo para Renan, o menino prodígio do atual momento da sinuca sorocabana, que trancou as 5 primeiras partidas de um desafio de nove combinadas. E trancar, no linguajar da sinuca, significa matar uma quantidade de bolas, em sequência, que não sobra pontos para o adversário alcançá-lo.

Dois dias depois, a tragédia. Paulo Roberto de Quevedo Andrade havia morrido.

Ratinho, uma das grandes almas da sinuca sorocabana, deu a idéia e Paulo Dias já está matutando para organizar um torneio que leve o nome de Paulo Roberto. Um jogador clássico, que estudava as jogadas e treinava. Um jogador de respeito. Uma homenagem mínima à pessoa do bem que foi Paulo Roberto.

Engenheiro civil, Paulo Roberto era concursado do Conjunto Hospitalar de Sorocaba onde tinha todo o complexo hospitalar inteiro sob a sua responsabilidade.

Enterrado no domingo passado, os amigos passaram boa parte da última terça-feira, quando novamente se encontraram no Salão do Freitas, lamentando a morte do amigo. Paulo Roberto não aparentava que tinha 65 anos, parecia bem menos. E certamente a confiança em seu bom estado físico levou a ele a subir no telhado da sua casa de onde despencou.

Ele caiu, se levantou e avisou a Malu, sua esposa, do que tinha acontecido. Ela quis saber como estava e ele disse que bem e de repente começou com muitas dores. Foram ao Hospital Unimed, recebeu atendimento e teve alta. Chegou em casa, deu meia volta, havia muita dor. Chegou lá e um outro médico fez o atendimento e o internou imediatamente. Ficou semanas na UTI até ser liberado para ir ao quarto e morrer.

“A gente ainda não acredita: nunca mais sinuca, nunca mais beliscar o pão ao redor da mesa, nunca mais elogiar que ele estava sempre, sempre, sempre cheiroso. Meu cunhado Paulo”, escreveu em sua página pessoal Estela Casagrande, irmã de Maria Lúcia Casagrande Andrade e tia de Renan, filho único de Paulo.

“Toda despedida é dor… tão doce todavia, que eu te diria boa noite até que amanhecesse o dia.” (William Shakespeare)

Paulo Roberto, certamente, já está jogando com outros craques que tão cedo deixaram os amigos sorocabanos da sinuca…

Daqui a pouco, às 19h30, na Igreja Nossa Senhora Auxiliadora será celebrada sua Missa de 7º Dia.

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