O charme e encanto de um homem bom

O que foi, tá triste, aconteceu alguma coisa? E quando lhe respondi: o tio do Jammal morreu, minha mulher mudou o tom de voz firme e imperativo de sua pergunta para uma voz de lamúrio: aquele que a gente encontra na padaria Real? Assim que terminei meu gesto com a cabeça, afirmativo, ela me disse: achei que ele nunca ia morrer.
Elias Jammal Neto tinha 79 anos e morreu em sua casa na madrugada desta sexta-feira santa. Em tempos de isolamento social, seu sepultamento aconteceu hoje, sem cerimônia, com os parentes mais íntimos, apenas, se despedindo dele. Aposto, fosse em tempos normais e seria um dos velório mais concorridos do ano.
Eliasinho era um encantador de almas. Sempre elegante, nunca nem imaginei ele de tênis, jeans ou camiseta, ele era o tipo que olhava nos olhos das pessoas para conversar. E falava com a voz calma e escutava. Parece algo tão básico, mas nos dias de hoje o que é cada vez mais raro é alguém que escute o que seu interlocutor diz. Em tempos egocêntricos e megalomaníaco, Eliasinho era dessas almas raras que a gente imagina que nunca vá morrer. Um anjo.

Ele poderia ter sido Neto, afinal trazia o nome do avô que deixou a família na região onde hoje estão a Síria e o Líbano, para vir ao Brasil. Aliás, numa rápida pesquisa no Google e Facebook, será possível encontrar pelo menos uma dúzia de Elias Jammal, espalhados por Londres, Dubai,Tailândia, Estados Unidos, cidades onde nem sei que país fica. Um dos seus homônimos é um escritor alemão famoso: Elias Jammal (nascido em 1954 em Beirute , Líbano ), professor universitário alemão de origem palestina e autor de textos literários. De 1998 a 2016, foi professor de estudos interculturais na Universidade Heilbronn.

Mas meu Elias virou, carinhosamente, Eliasinho por causa do seu primo, Elias Antônio José, o criador do primeiro shopping de Sorocaba, ali na avenida Afonso Vergueiro com quem iniciou a carreira de vendedor de tecidos. No ano retrasado, sentado no mesão da Real do centro, como sempre fazia, Eliasinho estava com sua mulher, dona Sidney,que enchia o carrinho com o que levaria para casa. E ao invés das mesuras que sempre fazíamos um com o outro, dessa vez ele foi firme, tão firme, que me chamou de Djalma, e não Deda, que era como minha mãe fazia quando queria me chamar a atenção. O que é que está acontecendo? Surpreso, decidi falar e externei a dureza econômica. E um alívio voltou a encher o rosto de Eliasinho. Ah, mas isso passa.E naquele dia me contou como era ser vendedor numa época de hiperinflação onde o comprador pagava à prazo. Uma das maiores lições de vida que ouvi. Era como se ele tivesse me falado que tudo passa, desencana, há jeito para tudo. Eliasinho me encheu de elogios, como um professor fala aos seus alunos antes de dizer:agora vai brincar.
O jornalista Walter Rinaldi Leite, que desfrutou do convívio diário de Eliasinho na chamada Turma do Café Sole, quando ainda restava algum glamour no Centro de Sorocaba, me explica que Elias teve comércio de tecido com o primo dele, Elias Antonio e foi o primeiro jovem de Sorocaba, aos 18 anos de idade, a ter um Simca Chambord, símbolo de status, mas principalmente de bom gosto.
Waltinho me falou que Elias era um homem de muitas histórias e fazia questão de dividi-las com os muitos amigos e conhecidos. Seu maior prazer era uma boa roda de conversa e de pescaria, por isso era sócio de um rancho no rio Paranapanema. Durante muito tempo, um de seus maiores amigos e companheiros de pescaria foi Mário Perez, pai do ex-jogador Marinho Perez que foi capitão da seleção brasileira de 1974 e fez história no São Bento, Santos, Palmeiras, Internacional e se tornou ídolo do futebol português.

Waltinho lembra que de comerciante perspicaz, Eliasinho decidiu mudar cerra vez para dar uma ajuda a um amigo de Itapetininga que tinha sido eleito deputado estadual e, assim, virou assessor parlamentar de Osmar Thibes.

Há outras milhares de histórias em torno de Eliasinho. E uma única certeza: quando a vida voltar ao normal depois do CoronaVirus o café diário no mesão da Real do centro nunca mais será o mesmo. O charme e encanto de um homem bom sempre farão falta.

Que Fábio, e seu irmão, os sobrinhos que tanto orgulho davam ao tio, levem adiante o legado Jammal.

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