O mágico e o aprendiz

Ao ver a foto do prefeito Manga sentado ao lado do presidente Bolsonaro no Palácio do Planalto, como divulgado pela assessoria municipal, e ao ler que, conforme escreveu Manga em sua rede social, para deus nada é impossível e ele sonha um dia também ser presidente da República (sim, Manga usou sua rede social para nos informar desta sua vontade), pensei na mesma hora da história do Mágico e seu Aprendiz.

Manga, hoje, completa 41 dias no cargo de prefeito e as pessoas já acreditam que ele fez muito, que ele é rápido, que ele trabalha mais do que qualquer outro que passou pelo cargo. Manga tem a magia do “mágico, aquele que consegue fazer o público sonhar enquanto está acordado, levando-o a um mundo imaginário onde a ficção se transforma em realidade, ainda que por breves momentos”, como nos ensina o professor português João Miranda (https://www.portoeditora.pt/espacoprofessor/paginas-especiais/educacao-pre-escolar/opiniao-pre/magico ).

O mágico não quer dinheiro, ele busca a sensação de estar num palco e conseguir com que o público se abstraia do seu dia a dia, desfrutando daquilo que ele, mágico, demorou anos a ensaiar, para que no final receba o que deseja: O Aplauso.

Mas há uma grande desvantagem nisso tudo: O Mágico quer mais, precisa de mais aplauso, sua ambição cresce e a adrenalina daquele primeiro aplauso, aquele que encheu o seu coração, aquele sabor, é cada vez mais buscado e aí, sem um bom staff, o risco de ser engolido pelos seus princípios ilusionísticos pode levá-lo à morte, como acontece com um drogado na chamada overdose.

Manga, como bom mágico, sabe que a comunicação com o público, a forma de estar no palco, a eventual decoração de cenário são apenas algumas das características essenciais de uma boa magia.

E Manga não faz truque. Se na campanha ele não conseguiu a clareza de mostrar isso, neste primeiros 41 dias ele deixou claro que sabe bastante bem a diferença entre “truque” e “magia”. Apenas um bom mágico faz magia levando o público não a estar simplesmente à procura de um “artefato” ou à procura de resolver um mero puzzle ou “quebra-cabeças”. Um bom mágico é muito mais do que isso, pois ele faz o público esquecer que existe uma explicação lógica por detrás de determinada ilusão. E para se conseguir esse estado de “atmosfera mágica” são necessários anos de prática e a constante realização de espetáculos de magia, para que todas as ilusões e a sua apresentação sejam o mais cuidadas e perfeitas possível.

E Manga, para a magia acontecer, sabe que o mágico, antes de mais, precisa saber guardar segredo. O ilusionismo vive dos segredos, da sensação de que algo de incrível e inexplicável acontece. Assim Manga elegeu o presidente da Câmara, aprovou um empréstimo internacional e receberá o presidente da República para inaugurar a Estação de Tratamento de Água do Vitória Régia. E todos o aplaudem, como mágica. Manga guarda muito bem o segredo de que o empréstimo só saiu em razão do trabalho feito pelo prefeito Crespo (sim, aquele defenestrado pela opinião pública) e que a ETA do Vitória Régia, igualmente, é obra do prefeito Crespo (sim, o mesmo, aquele duas vezes cassado).

Manga tem apenas 41 anos. Terá 45 quando for para a reeleição. Se ganhar, com 49 anos terá sido o mais jovem prefeito reeleito da cidade. Poderá, sim, sonhar mais alto. Apenas essa ambição leva a um objetivo tão grande. Manga quer sentir novamente o sabor do primeiro aplauso e nestes 41 dias já é possível sentir o poder de sua imaginação. E isso, levando em conta Albert Einstein, não é pouco: “A imaginação é mais importante que o conhecimento”.

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