O maior problema da nova lógica para o atendimento de saúde em Sorocaba, desejada pelo prefeito Crespo, não é mostrar ao usuário aonde ele deve ir para ser atendido, mas quebrar a resistência de servidores à mudança proposta

Antes da apresentação do Plano de Restruturação da Saúde no município – tema de audiência pública realizada na Câmara Municipal de Sorocaba na quarta-feira – durante entrevista ao vivo com o prefeito Crespo, na coluna O Deda Questão, no Jornal Ipanema (FM 91,1Mhz), perguntei a ele qual era a estratégia para comunicar aos usuários do sistema público que o que ele fez nos últimos 20 anos para receber atendimento (indo nas Unidades Pré-Hospitalares ou Pronto-Atendimento) estava alterado, tendo de ira agora às UBSs (Unidades Básicas de Saúde). Perguntei isso, pois achava que esse seria o maior problema a ser enfrentado pela administração para colocar em prática o plano cuja a intenção, principal, nas palavras do próprio prefeito, “é valorizar a atenção básica e cortar gastos da urgência e emergência através da gestão compartilhada”.

Mas, após conversar com vereadores e funcionários públicos (médicos e demais pessoas que fazem a saúde funcionar) entendo que existe um problema que antecede ao usuário: convencer o servidor público, além de sindicatos dos funcionários e médicos, e dos vereadores que têm sua base eleitoral junto a essas duas categorias, a não resistir às mudanças propostas.

Aliás, um abismo ideológico separa o prefeito desses servidores e sindicatos. O prefeito entende que o custo do funcionário público inviabiliza que a prefeitura ofereça um atendimento de saúde de qualidade e o servidor público deseja manter as conquistas típicas da categoria, o que inclui a aposentadoria pela Funserv (não pela Previdência) e o convênio médico (a maioria não usa da rede pública), que foram alcançadas ao longo de décadas.

Em função dessa resistência, que eu não havia captado antes do anúncio do Plano de Restruturação da Saúde, passa a fazer sentido o que o vereador Renan dos Santos (PC do B), presidente da Comissão de Saúde da Câmara de Sorocaba, disse durante o anúncio do plano: “Se amanhã vier o caos não poderão dizer que não sabia”.

O fato é que o Plano de Restruturação da Saúde significará, quando colocado em prática, uma mudança de hábito de usuários e de quem faz o atendimento. Historicamente, isso é evidente, qualquer mudança de cultura significa quebra de paradigmas e toda quebra de paradigma tem resistência. Enfim, tudo que melhorou, piorou antes de melhorar. O prefeito Crespo está decidido a pagar esse preço e conta com a opinião dos usuários dos serviços terceirizados de saúde (UPH da Zona Leste e UPA do Éden) para levar adiante seu plano. Os usuários só apresentam vantagens nesses locais que são terceirizados desde o governo Pannunzio e que se resumem a dois pontos: rapidez no atendimento e acolhida dos profissionais de saúde que são atenciosos com os pacientes; fatos sistematicamente criticados onde o serviço é feito pelo servidor. A questão é: quais condições de trabalho existem em um atendimento e outro?

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