O oco de quem está amontoado na Cracolândia e Fome de Viver

A tecnologia 4G {da sigla para a Quarta Geração (em inglês: Fourth Generation) de telefonia móvel, baseada num IP – endereço de Protocolo da Internet, do inglês Internet Protocol address, ou seja um rótulo numérico atribuído a cada dispositivo conectado a uma rede de computadores que utiliza o Protocolo de Internet para comunicação – conectado a um sistema e a uma rede, alcançando a convergência entre as redes de cabo e sem fio e computadores, dispositivos eletrônicos e tecnologias da informação para prover velocidades de acesso entre 100 Megabit/s em movimento e 1 Gigabit/s em repouso, mantendo uma qualidade de serviço ponto-a-ponto de alta segurança para permitir oferecer serviços de qualquer tipo, regularmente e independentemente da localização} mudou o comportamento humano.

Neste século 21, uma criança de 5 anos já tem o seu tablete. Um adolescente, então, nem se fala.

Nos anos 80, quando eu era adolescente, ver um filme era um acontecimento. Na TV só passava velharia ou “coisa comercial” e hollywoodiana. Queríamos ver “filmes de arte”, filmes conceituais, a criação, a manifestação do artista. Bem, por nós, ao menos, digo do grupo do qual eu fazia parte e, confesso, sempre foi uma minoria. Mas havia, ainda assim, um grupo. Nos organizávamos. Havia uma combinação. Dia, hora, local… Havia contato físico. Nos tocávamos. Nos encostávamos. E, principalmente, nos olhávamos. Muitas vezes tão dentro que víamos o que quase sempre tentávamos esconder de nós mesmos.

Numa tarde de um domingo quente, no Jardim Chapadão, em Campinas, nos reunimos em torno do videocassete da Érica e ali nasceu um dos mais acalorados debates de minha juventude em torno do filme “Fome de Viver” – um clássico do gótico, um tipo bem específico de cultura (comportamental, musical e moda).

A história de “Fome de Viver” é sobre Sarah (a jovem Susan Sarandon), uma mortal que se envolve em um triângulo amoroso com um casal de vampiros vividos por David Bowie e Catherine Deneuve. O filme é baseado no livro de mesmo nome de Whitley Strieber e aborda a existência de seres imortais que buscam a imortalidade. Uma tolice sem fim, me lembro de ter sentenciado do alto dos meus 17 anos naquela tarde de domingo de 1985. Carlos Magno, que viria a se tornar meu melhor amigo, tentava esboçar uma defesa do filme e seus argumentos, mas a minha eloquência e certeza do que eu estava falando diante da timidez dele e das suas dúvidas não foram páreo para aquele debate. E o propósito, naquele momento, era o de polemizar. A polêmica pela polêmica. Como eu era imbecil! Era?

Carlos Magno morreu cedo demais. Esse é apenas um dos assuntos que nunca consegui dizer que ele tinha razão. “Fome de Viver” é uma metáfora fantástica da vida contemporânea. Não falo do livro, que não li, mas do filme. Um filme a frente do seu tempo. Sua estética – e nisso me lembro que havia uma concordância entre todos nós naquele debate e certamente era isso que nos aglutinava em nossas desavenças – alucinante na TV desfocada, na sala quente e fechada, com cobertores na janela, servindo de cortina, nunca saíram de minha mente. As imagens de David Bowie e Catherine Deneuve de um modo ou de outro sempre me acompanharam, quase amedrontaram.

Para que digo tudo isso?

Para dizer que me encontrei com eles (David Bowie e Catherine Deneuve) na tarde de segunda-feira passada.

Feriado pelo Dia do Funcionário Público, fui para São Paulo e precisava estar na rua da Graça. Deixei o carro na Vila Leopoldina e peguei o trem até a Estação Júlio Prestes. Peguei a Alameda Cleveland e caminhei em direção a Alameda Nothmann. Um baque: Um cheiro insuportável. Uma mistura de podre e azedo. Dá ânsia de vômito. Fezes, urina, suor, sujeira, falta de banho. Velhos, adultos, crianças, adolescentes. Milhares, talvez; centenas, com certeza de zumbis espalhados e amontoados. Estar na Cracolândia é uma experiência indescritível. São ocos humanos. Não consegui ver nada dentro daqueles seres. Quase todos, talvez por alguma exceção, pessoas escuras ou de nascença ou de sujeira, de meses sem se lavarem, pele com uma crosta grudada. Naquelas “pessoas” amontoadas, não consegui ver alma – no sentido hebraico néfesh, ao Sanscrito Ātman e ao grego psykhé e significa Ser, Vida ou Criatura. Não vi nos craqueiros, aquilo quando deriva do termo em Latim e significa Animu, que significa O que Anima, O Fôlego de Vida.

Parei conversar com dois PMs que impedem que os craqueiros avancem um determinado limite da Alamenda Cleveland e quis saber porque aquelas pessoas usam o crack… Os PMs usavam máscaras, como a de médicos, com a intenção de suportar melhor o péssimo cheiro do local. Eles olharam para aqueles seres, fizeram cara de espanto e me devolveram o olhar como se dissessem: boa pergunta!

Me lembrei do filme.

Mais que isso, me lembrei daquela tarde de domingo no Jardim Chapadão, nossa turma, nós todos deitados no chão, entrelaçados, atentos, escorados, bem cheirosos… humanizados!

Talvez o horror da Cracolândia (para gente como eu, que vê aquela cena como um espectador) seja o de perceber que aqueles ocos ali amontoadas, fedidos, se sintam “humanizados” apenas nessa “viagem” de desconexão da realidade.

 

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