O que você vê quando olha para esta pintura? Sorocabanos tradicionalistas vêem o órgão genital feminino, esperam ação do MP e estão bravos com o prefeito que autorizou. Vereador/pastor cobra secretário. Artista alcança seu objetivo

VaginonaUma pintura de Panmela Castro pode ser vista no Palacete Scarpa, local onde fica instalada a Secretaria de Cultura, no centro de Sorocaba, como parte integrante do evento “Frestas – Trienal de Artes | Entre Pós-Verdades e Acontecimentos” organizado em Sorocaba pelo Sesc (Serviço Social do Comércio) e que será aberta ao público neste sábado, dia 12 de agosto.

Exatos 37 artistas foram selecionados para a 2ª edição do evento, que tem curadoria da crítica de arte Daniela Labra, mas Panmela Castro, conhecida internacionalmente como a rainha do graffiti brasileiro, já se destacou.

Sua pintura chocou os tradicionalistas sorocabanos e despertou um embate raramente visto nas redes sociais em torno dessa pintura.

Buceta no prédio, não!

Um tradicional sorocabano. Desses de família. De sobrenome. Que ocupa lugar de destaque na sociedade. Que mora em condomínio de luxo. Viaja aos Estados Unidos e Europa nas férias… Bom, como minha fonte e por preferir se manter anônimo, me reservo o direito de não dizer o seu nome. Mas trago a história, pois ela é o retrato do sorocabano que se mexeu para eleger Crespo quando, no 2º turno da eleição passada, pesquisa Ibope/TV Tem indicava que Raul Marcelo (PSOL) tinha chance de ser eleito prefeito de Sorocaba.

Simplesmente eles estão indignados com esse grafite na parede de um prédio histórico de Sorocaba e esperam que o promotor público Orlando Bastos Filho mova uma ação, esperam que o prefeito (com quem esses sorocabanos trocam mensagens de email) determine que a pintura saia da parede e dizem que eles próprios vão à justiça caso nem o MP ou o prefeito se mexam.

Leiam a íntegra de uma dessas manifestações:

“Esta Sorocaba me encanta. Cada dia uma surpresa… Gostei da foto da bucetona no palácio Scarpa. Ficou bonito. Coisa de artista sexual… Se o Orlando Bastos não for contra em prédio protegido pelo patrimônio eu vou entrar na justiça contra… Buceta no prédio, não! Viva Sorocaba. Puta bucetona… zoiuda. Vou levar um falo gigante pra comer a bucetona… Se fizer isso, acho que vou fazer sucesso…. Mandei pro prefeito esses meus questionamentos… Ele não respondeu ainda… Será que Adilson Cezar (presidente do Instituto Histórico, Geográfico, Genealógico de Sorocaba) gostou dessa bucetona no patrimônio histórico e geográfico? Esse bucetão já deu!”

Dá ou não para se ter uma idéia do perfil do sorocabano irritado com a obra?

Vereador/pastor cobra secretário

O vereador Luís Santos, pastor evangélico em Sorocaba, captou esse sentimento de indignação da parcela mais tradicional dos sorocabanos e decidiu entender o que está acontecendo.

Ele convidou e recebeu em seu gabinete o secretário da Cultura, Werinton Kermes, para entender as razões da tal obra estar pintada numa prédio histórico e o que, de fato, está pintado ali.

Werinton Kermes é agente político há anos, mas antes de tudo é um artista. Sua ligação é direta com a fotografia e o vídeo. Educado, fez uma abordagem sobre liberdade de expressão e o sentido da obra de arte e do artista no século 21.

Tratou de explicar também o quanto Sorocaba é privilegiada por receber a Trienal de Artes e o quanto um tema como Frestas, pós-verdade e acontecimentos ajudam na formação crítica de uma sociedade como a nossa.

Ambos, tanto o vereador, quanto o secretário aceitaram o convite e estarão nesta sexta-feira na coluna O Deda Questão no Jornal da Ipanema (FM 91.1Mhz) para debater o assunto.

Panmela alcança seu objetivo

Panmela Castro (Anarkia Boladona) é conhecida internacionalmente como a rainha do graffiti brasileiro. É nascida e criada na Penha, subúrbio do Rio de Janeiro. Formada em pintura pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro e mestre em processos artísticos contemporâneos pelo Instituto de Artes da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, mas sua arte tem influência, da pichação, nicho underground habitualmente dominado por homens. Seu trabalho de arte aborda de uma forma autobiográfica as relações estabelecidas a vivencia na rua, questões sobre o corpo feminino em diálogo com a paisagem urbana, e outras relacionadas à alteridade como crítica cultural feminista.

Pensando em provocar e polemizar através do processo artístico de convivência com a rua as verdades instituídas por nossa sociedade patriarcal, em especial em relação ao corpo feminino, à sexualidade, à subjetividade, analisando as relações de poder. Retirando a possibilidade restrita da concepção da produção de obras e colocando a arte como o próprio estilo de vida. Assim sua vivencia pessoal, as suas intimidades, as atitudes, as escolhas por caminhos não convencionais e o seu diálogo com a rua seriam o processo mais importante: A obra em si. Possuí um trabalho efêmero, pois coisas fixas e pertinentes não são suficientes para a sua ansiedade e não correspondem as necessidades de entendimento do mundo em que viva.

Panmela Castro conquistou reconhecimento internacional por meio de seus grafites e hoje dedica-se à arte contemporânea com trabalhos em mídias como video, fotografia e principalmente performance art. Sua primeira performance pública aconteceu em sete de julho de 2015 na abertura da Exposição Eva onde convidou o público a cortar totalmente o seu cabelo. No ano de 2016 apresentou suas duas performances sequentes: “Porquê?” realizada no Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea onde caminhou com um enorme vestido pink e riscou em seu peito com uma navalha a palavra “porquê?” e “A Imitação da Rosa” onde convidou o público a caminhar pelos jardins do Museu da República em um vestido siamês.

Panmela criou em 2008 o “Grafiteiras Pela Lei Maria da Penha”, um projeto que usa o graffiti e cultura urbana para combater a violência contra as mulheres. Através deste projeto, realiza junto com outras grafiteiras uma campanha para educar as mulheres desfavorecidas sobre a recentemente aprovada Lei Maria da Penha, uma importante nova lei sobre a violência doméstica da constituição brasileira. Para promover os direitos das mulheres, Anarkia aventurou-se em favelas do Rio de Janeiro dialogando com mulheres e meninas que agora estão informadas dos seus direitos, e produzindo murais com mensagens sobre os direitos das mulheres e a lei. Junto com o grupo que se formou durante o projeto, Anarkia fundou a Nami rede feminista de artistas urbanas que pensa e discute a situação da mulher na sociedade, realiza projetos sociais e usa a arte como um instrumento de transformação cultural. Suas integrantes acreditam que podem tornar o mundo um lugar melhor, usando grafite para uma mudança social positiva.

Em 2015 com apoio da Fundação Ford desenvolveu o programa #AfroGrafiteiras[13] que formou um grupo de 30 artistas nas temáticas da arte urbana, comunicação, raça e gênero.

Além de estudar na prestigiada Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro(UFRJ), Anarkia conquistou lugar como uma das figuras mais importantes do graffiti Brasileiro através de sua arte com consciência social. Hoje, Anarkia promove sua missão em diferentes lugares do mundo compartilhando sua visão através de palestras, exposições e workshops hospedado por festivais, fóruns e conferências como das Organização das Nações Unidas, da Organização dos Estados Americanos,da Fundação Rosa Luxemburgo, La Família Ayara, Festival Manifesto, FASE e Caramundo. Além de produzir murais e expor em diversos países, Anarkia recebeu inúmeros prêmios e reconhecimentos, incluindo o Prêmio Hutúz, como grafiteiro da década em 2009 e o Vital Voices Global Leadership Awards na categoria de direitos humanos, entrando assim para o grupo de seletas homenageadas como a Presidente do Chile Michelle Bachelet, a pioneira antitrafico de mulheres Somaly Mam, a premio Nobel Laureate Muhammad Yunus, e a secretária dos Estados Unidos Hillary Clinton. Em 2012 foi homenageada pela Diller Von Furstenberg Family foundation com o DVF Awards da famosa estilista Diane von Fürstenberg junto de outras mulheres como Oprah Winfrey, entrou para lista da revista Newsweek como uma das 150 mulheres que estão “Bombando” no mundo e em 2017 foi citada na lista de 18 nomes de ativistas da nova geração que estão fazendo a diferença da W Magazine.

Em 2015 foi homenageada com o prêmio Mulher Melhor, o prêmio Toda Extra e indicada ao prêmio Empreendedor Social de Futuro da Folha de São Paulo. Em 2016 foi indicada ao prêmio Cláudia na categoria cultura.

Panmela continua ativa intervindo em toda a cidade e através de participação em manifestações públicas, seminários e projetos sociais. O seu trabalho político social é a grande inspiração para seu trabalho artístico que matem como tema principal a questão das mulheres e o feminismo.