“Parasita”, um singelo retrato de nosso anárquico tempo

Minha intenção era ter escrito sobre o filme “Parasita” – o grande vencedor do Oscar 2020 – em outubro do ano passado quando o vi pela primeira vez.

Depois fiquei assanhado em escrever sobre o filme, há dez dias, quando o superministro do presidente Jair Bolsonaro, Paulo Guedes, o homem todo poderoso da economia, chamou os funcionários públicos de parasitas, indicando o quanto a presença deles é problemática para o bom funcionamento do equilíbrio das finanças da máquina pública. Ele e todos os seus defensores dizem que ele se expressou mal, pedem desculpas, mas como já dizia Oscar Wilde, a primeira impressão é a que vale.

Ao todo o filme ficou com quatro estatuetas, sendo o grande vencedor da noite deste domingo (Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Original e Melhor Filme Internacional) entrando para a história da famosa premiação do cinema mundial como o primeiro longa não falado em língua inglesa a vencer como Melhor Filme.

O noticiário sobre o filme, o classifica assim: “Parasita” é uma dramédia (mistura de drama com comédia) sul-coreana que fala sobre diferença de classes, fascínio de pobres com a vida luxuosa dos ricos, ascensão social.

Obviamente que o filme pode ser assistido assim.

Mas, ao meu ver, o filme é uma grande crítica às chamadas ideologias de Esquerda e de Direita e suas variantes que nasceram com a Revolução Francesa e deveriam ter chegado ao fim com a Guerra Fria em 1989 com a queda do Muro de Berlim.

Pensando que ser de Direita é o Conservadorismo, Desconfiança do Estado e Valorização do Indivíduo e Ser de Esquerda é Defender e Lutar por Justiça Social e Diminuição de Liberdade Individual quando ela atua em Detrimento de Liberdade do Grupo “Parasitas” mostra uma Coréia do Sul real, ou seja, um país recheado de desigualdades sociais.

O filme se passa na casa de uma família muito rica que dá emprego a um jovem de uma família muito pobre que mora com o pai, mãe e irmã num porão na periferia. Um porão que inundado pela chuva, eles perdem tudo. A mesma chuva que a mãe da família rica agradece e vê como bênção de deus.

Quando a família pobre “toma o poder”, ou seja, quando eles ocupam num dado momento do filme, dentro do contexto narrativo da história, a casa dos ricos, eles se comportam como ricos, abandonam qualquer sentido de luta ou defesa de justiça social ou desejo de diminuir sua liberdade individual de modo a promover a liberdade do seu grupo. Há uma fala da irmã, neste sentido, bastante clara, em defender as conquistas deles e que os iguais a eles que se danem, que os que eles tiraram do emprego (e foi exatamente isso o que eles fizeram, arrancaram os que estavam no emprego naquela casa para que eles ocupassem a vaga) que se virem.

Quando vi “Parasita” pela primeira vez fiquei contente por reencontrar-me com a Coréia, país onde estive em 1997 como jornalista enviado pelo jornal Cruzeiro do Sul quando a prefeitura de Sorocaba, em missão chefiada pelo então prefeito Renato Amary, levou uma comitiva de pelo menos dez empresários até Anyang, cidade irmã de Sorocaba. “Parasita” comprova o que eu tinha na memória, um país que se concentrou excessivamente no desenvolvimento deixando a preservação ambiental em segundo plano (algo muito parecido com o sudeste brasileiro), onde a concentração de renda estava nas mãos de alguns em detrimento ao trabalho de baixa remuneração de muitos outros.

Isso está no filme. E é importante que o brasileiro o veja, pois tira a glamorização criada em torno da Coréia do Sul como exemplo do sucesso absoluto de que o melhor modelo é o do liberalismo econômico (ideologia baseada na organização da economia em linhas individualistas, rejeitando intervencionismo estatal, o que significa que o maior número possível de decisões econômicas são tomadas pelas empresas e indivíduos e não pelo Estado ou por organizações coletivas).

O liberalismo é excelente para quem se estabelece e o filme deixa isso claro. Quem não queria ter a vida da família rica do filme?

Mas, igualmente, o filme mostra que o liberalismo é péssimo para quem mesmo com diploma (o filme fala em 500 mil ou 5 milhões, não me recordo a cifra) de diplomados, com curso superior, que disputam vaga de motorista para sobreviver num porão.

Há vários outros pontos a serem vistos em “Parasita” e que o filme desperta o debate. Mas um deles me é bastante caro, do ponto de vista pessoal. Numa cena, depois da enchente no porão onde moram, a família é levada para um abrigo num ginásio de esportes (quantas vezes não vimos cenas assim nos nossos telejornais!) para terem onde passar a noite. O filho começa a falar de planos futuros e o pai é taxativo: Não há plano nenhum, pois sem plano não há frustração. E ele pergunta, se referindo às milhares de pessoas dormindo no chão do vasto ginásio: quantas dessas pessoas planejavam dormir esta noite aqui?

Quem é o “Parasita” que dá nome ao filme, afinal?

Bom, sendo parasitas organismos que vivem em associação com outros dos quais retiram os meios para a sua sobrevivência, normalmente prejudicando, explorando, o organismo hospedeiro, o filme deixa claro que o parasita do pobre é o rico e do rico o pobre; que o Estado é o parasita do cidadão, embora o governo Bolsonaro tenha um superministro dizendo o contrário.

 

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