Paulo Betti externa seu orgulho pelo “filho” A Fera na Selva, rodado aqui

O “caixeiro viajante” foi o papel que escolhi, ou pro qual fui escolhido pelo destino, para executar a tarefa de lançar o filme pronto pela vida afora.

Uma gestação de trinta anos não poderia resultar num parto simples.

O que fiz foi pelo filme, não foi pelo cinema brasileiro, se bem que repeti, toda sessão que apresentei, a frase de Paulo Emílio Salles Gomes, honorável mestre da USP: “O pior filme brasileiro diz mais de nós mesmos que o melhor filme estrangeiro.” E fazia questão de pedir aos espectadores que vissem até o final os créditos, com os nomes de todos os 550 figurantes e entre centenas de outros cargos, os de 12 motoristas.

É a economia que se revela importante, um mercado desprotegido onde nossos filmes são os intrusos disputando espaço com os donos do pedaço, os americanos com seus super-heróis e anti-heróis e faturamentos de milhões de dólares.

É a economia, estúpido!

Não se trata de uma luta entre David e Golias. Trata-se do ser ou não ser. A nós foi reservado o não ser.

Decidi que iria apresentar todas exibições do filme ao público. E assim foram 55 sessões. No Rio, Belém, Santos, Sorocaba, Brasília, São Paulo, Teresina (o cinema mais lindo, 60 caixas de som um oásis com a programação genial do Douglas e da Gardênia, Floriano e Picos onde vi o milagre da virada do Flamengo no Peru). Em todas elas pedi carinho e compreensão pro nosso trabalho.

Como se o tivesse ido buscar na maternidade e agora o fosse mostrar no lugar onde foi gestado.

Um lançamento no varejo afetivo.

Um orgânico num momento tóxico.

Fui aprimorando o improviso da apresentação e o transformando num quase stand up, antes de começar o filme, uns 15 minutos, onde arrancava risos ao me referir ao nepotismo de colocar todos meus velhos irmãos na tela grande, na cena do hospital onde trabalhei como menor.

Outro tiro certo era quando contava sobre meus amigos de infância, que se materializavam 60 anos depois, na minha frente, meninos cujas feições encarquilhadas, como num espelho, refletiam meu próprio envelhecimento. E perguntavam, cruéis: “quem sou eu?” E eu respondia, pro riso do público: “se você não sabe como quer que eu saiba”?

Em Sorocaba foram 3 sessões por dia, dormi no chão e depois num sofazinho na sala dos brinquedos perto da praça de alimentação,  nos intervalos, enquanto o público via o filme. Recuperava forças pra aparecer bem em cada foto na frente do pôster, com os espectadores, amigos, parentes, fiz uma dúzia de fotos com gente com mais de 100 anos, gente que nunca tinha visto um filme antes no cinema.

Tirar fotos parece fácil, mas é um exercício árduo, tem que se ficar atento pra não aparecer com olho fechado, feijão no dente ou com a barriga solta. É prazeiroso e tenso ao mesmo tempo. Fiz audiodescrição ao vivo pros cegos, o cão guia pastor alemão sentado aos meus pés. Ouvi relatos emocionados, uma senhora disse que havia pintado os cabelos e decidido viver a vida depois de ver o filme. Um rapaz sentiu que meu personagem era um lobisomem. As mais variadas interpretações. Gostaram do filme, a crítica foi boa, o bonequinho aplaudiu, Sorocaba se achou bonita na tela.

Bendita Suzana Schild.

Eliana Caruso me mandou a crítica às 6 da manhã de quinta, providenciei um banner, fazendo duas cotações diferentes de preço e levei para a estréia à noite nos dois cinemas. O Globo, a Folha e o Estado não me entrevistaram. Mas Mônica Bérgamo, Ancelmo Góis e Patrícia Kogut deram na coluna. O Cruzeiro do Sul , A Tribuna e Correio Braziliense, fizeram belas matérias.

E, glória, Antônio Bivar viu e amou.

Andei da Barra pra Santa Teresa e de volta pra Barra durante uma semana inteira. O Waze me perdeu por 40 minutos na escuridão solitária e altamente perigosa da selva da estrada do Sumaré.

Cristina Pereira e Rafa Ponzi viram.

Quito e Mari.

Conheci a fábrica da Wyda em Sorocaba e o fantástico Paulo Flavio me ciceroneou.

A Maria do Carmo foi com o Jovelino e levou um queijo incrível.

Senti falta do Perdiga, que está doente, mas se recuperando, e do Zeca que não vai ver o filme porque não está mais por aqui. Vi a Cleide, a Marisa Macambyra, os filhos e a mulher do Gordo e visitei o Café Leopoldo, do Fineis, e o teatro novo do Darson em São Paulo. Não consegui conhecer o Commune, onde tem uma homenagem ao Adílson Barros. Visitei a igreja de João de Camargo em Sorocaba e a livraria Realejo em Santos. Encontrei a Tetê, a Paula a Ana e o Denis, nossos eternos queridos fans do Feliz Ano Velho.

Conheci o beco do Batman e o do Robim na Vila Madalena.

Bati ponto no Belas Artes, numa mesa perto do painel do “ Amarcord”, do Fellini. Vi duas peças de teatro.

Gravei com meu amigo Alfredo Alves , criador do clássico “Acorda Raimundo, Acorda”. Falei com o Walter , do Famiglia Mancini, lembramos da pré-inauguração nada convencional do primeiro restaurante com a participação de dona Lélia Abramo. Fiz yoga na casa da Alain e fotos pro Chile revoltoso da Paulina.

Usei o tempo todo uma camiseta preta do Berliner , que ganhei da Deborah Evelyn, onde está escrito em alemão “primeiro a comida, depois a moral”.

Em Brasília fiquei na casa do Nilson e da Vera, fui palestrar na faculdade  Fortium, fui massageado na Novitá e paparicado pela Dai e Luciana que me levaram almoçar no Girassol e fizeram camisetas do filme.

Adorei o pão de queijo e o açaí de Santa Teresa e a estação Jardim Oceânico do Metro. Mana e Rute viram no cineminha charmoso de Santa. Maria viu com o Pedro na Barra.

Fiquei sempre aflito sem saber a hora, a sala e o cinema que o filme ia passar. Era quarta, ia passar na quinta e eu ainda não sabia.

Divulguei como um louco no email, no face e no whatsapp, aprendi a fazer lista de transmissão, mas nunca usei robô, mesmo porque não sei como é.

Recebi links de curtas, dei entrevistas pra dezenas de sites, reencontrei amigos ganhei muitos lindos livros, canecas, esqueci a caneca do São Bento no hotel Cardum, será que é sinal que o time iria cair? Dadá me acompanhou pela viagem, companheira.

Danilo não perdeu uma sessão, levou um monte de gente pra ver e ainda me deu de presente o livro da Fernanda Montenegro.

A Veronica Marcilio levou uma turma boa pra ver, todos leram o livro!

Rafa Romão trabalhou arduamente no curso de adaptação literária gratuito à distância.

Adolescentes do colégio Stocco leram o livro e fizeram emocionante entrevista comigo. Pena que a sessão lotada no cinema enorme de Santo André não valeu pra computo de bilheteria porque foi privada. Sofri 6 horas no congestionamento da marginal.

Cassiane Souza sempre paciente comigo. Desmarquei e remarquei minha turnê por Portugal nessa viagem, decidi ficar mais em casa com meus filhos, cancelei Fortaleza e Salvador com receio do stress.

Meu sobrinho João aproveitou pra levar a escritura de um terreno pra eu assinar, entre uma sessão e outra.

Minha sobrinha Maria Helena pagou ingresso e levou uma galera. Todos meus parentes pagaram.

Com o Lauro, a Marina a Elisa, o Luiz Guilherme, o Marcelo Paiva, a Estela e o Haddad estreamos em São Paulo.

Caminhei com Alain Fresnot pela praça do Pôr do Sol, visitei Hugo Georgetti, encontrei Moacyr Amâncio e Evaldo Mocarzel. Regina Duarte viu o filme e gostou. Hugo Rothschild foi um ex-menino que foi. O Luís Arthur  e a Júlia Lemmertz adoraram e a Andréia Cals foi com a Márcia Halfin e a Cláudia Bolshaw. Macklyn foi com a turma da Maclaude.

Passei por Santos, de Clóvis Bueno e Sofredini, mestres meus, o mantra de Sofredini sempre me acompanhando: “não se poupe, não se poupe”.  Encontrei poetas, atores, atrizes, cantores, compositores, dramaturgos, pais de santo, ganhei garrafas de pinga boa, trufas, chocolates, beijos, abraços apertados, estive com prefeitos, vereadores, empresários, apresentadores, deputados, secretários, senadores, generais, candidatos a presidência da república, camareiros e porteiros de hotel, cabeleireiros, cantores de karaokê, bilheteiras e projecionistas, alunos, reitores e professores.

Fomos vizinhos de sala com Andréia Beltrão e sua “Hebe Camargo”, Lilia Cabral, a “Maria do Caritó “ e do “Divaldo Franco” , do Bruno Garcia. Passamos o filme no MAC do Projac, na Globo, onde Eliane revelou emocionada que a novela de Henry James, que é a origem de tudo, mudou a vida dela.

Rodrigo Fonseca falou coisas lindas sobre o filme, Cláudio Rangel estava com nó na garganta com a dedicatória pro José Wilker.

Vamos restaurar o longa sorocabano dos anos 50, “Não Mataras”, vamos criar um cineclube na sala 7 do Shopping, seu Creisso (sic) prometeu, vamos ver filmes brasileiros em nossos cinemas.

Nosso “A Fera na Selva”, está forte e parrudo, pronto pra enfrentar a TV aberta, o Canal Brasil e outras telas que virão. Seja feliz nosso filho. Carta de Paulo Betti originalmente enviada aos seus amigos e publicada aqui com a sua devida autorização.

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