Perdemos Botafogo e seu bordão de perplexidade: “ô, raça!”

Antônio Francisco Gonçalves, ou simplesmente Botafogo, depois de um período internado no Hospital da Unimed morreu no sábado à tarde e foi enterrado na manhã de domingo. Ele iria completar 80 anos de idade no próximo dia 26 de dezembro e vinha sofrendo com problemas respiratórios, certamente agravados pelas décadas seguidas de fumante, e pelo diabetes.

Presidente do Sindicato de Hoteis, Restaurantes e Bares de Sorocaba, Botafogo foi uma das primeiras pessoas que eu entrevistei quando ainda não passava de um foca (jovem repórter) nos idos de 1987. Ele seguiu por décadas nessa função defendendo os interesses da categoria que representava. E não temia entrar em divididas ou polêmicas, quando da chamada Lei Antifumo que ele tanto contestou por prejudicar a renda de alguns estabelecimentos. O mesmo aconteceu quando da Lei dos Bares que estipulou horário para o fechamento deles na cidade.

Seu interesse em defender a categoria veio dele próprio, depois de ver o sofrimento do seu pai atrás de um balcão. Primeiro na esquina das ruas 15 de Novembro com Brigadeiro Tobias, ao lado do embarque e desembarque dos ônibus da Cometa, antes de Sorocaba ter uma rodoviária, no final do anos 60. Depois, no bar que seu pai abriu na praça central, bem próxima do hotel mais chique da cidade, o Ferraretto, onde hospedava-se, por exemplo, o time da Academia do Palmeiras no começo dos anos 70.

Em 2012, por iniciativa do vereador Luís Santos, Botafogo recebeu o Título de Cidadão Emérito da Câmara de Vereadores de Sorocaba, um reconhecimento à sua luta não apenas pela categoria, mas pelo fomento ao turismo da cidade, pela geração de empregos no comércio de bares e bebidas, na preocupação ambiental quando se emprenhou para que Sorocaba tivesse sua lei de Prevenção e Controle da Poluição do Meio Ambiente, controlando o hábito do sorocabano de fazer o descarte do óleo de cozinha na pia ou no ralo. Para dar o exemplo, o Sindicato dos Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares de Sorocaba que foi o primeiro a receber o selo socioambiental que será afixado nos estabelecimentos que participarem da coleta do óleo para a reciclagem. Evita prejuízo para o estabelecimento e agrega valor, explicava Botafogo.

Sua atuação não se restringia a Sorocaba. Em Votorantim, quando do lançamento do projeto da reconstrução do Centro Histórico da cidade, como memória física, ele foi um dos integrantes da comissão que ficou a cargo de debater e pesquisar os pontos a serem reconstruídos.

Sua atuação ficou marcada na vida sorocabana e sua morte significa que perdemos um batalhador, uma pessoa de caráter, que tinha um bordão pessoal “ô raça!” para externar toda a sua perplexidade diante de pessoas que falavam, como é habitual, coisas sem noção. Tive o privilégio de entrevistá-lo e, quando fui secretário da Cultura da Prefeitura de Sorocaba, ver seu empenho, luta e amor pela cidade.

Apesar dessa convivência, nunca lhe perguntei o motivo desse apelido tão forte, Botafogo, incorporado aos seus nomes. Me dizem que ele foi jogador de futebol de um dos Botafogo que existem no Brasil. Sinceramente, não acredito que seja esta a razão. Ele não levava jeito para isso. Mas vai saber, nem sempre a aparência diz toda a verdade de uma pessoa.

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