Relações determinam os termos: quem mata é assassino

Uma espécie de comoção viralizou em grupos de redes sociais na tarde de quarta-feira quando ficou conhecido que o dono de uma pequena loja de roupas no Jardim São Guilherme, na Zona Norte de Sorocaba, matou a tiros de revólver três homens que teriam tentado assaltar o seu estabelecimento.

Apenas após a investigação da polícia, usando imagens do circuito interno da câmera de segurança do estabelecimento, é que haverá uma explicação mais adequada sobre os três mortos e sobre o comerciante que foragiu da cena do crime com todas as armas que possam estar envolvidas no fato.

Tal fato envolve três acontecimentos chocantes para mim.

O primeiro fato: pessoas acharem que podem tirar da outra o que não lhe pertence. O roubo e o furto sempre me chocam. Penso na índole desses bandidos, na história deles, desde quando receberam o peito da mãe, ao nascerem, até terem feito essa opção. Sim, ser bandido é uma opção. Não há inocente. Não há falta de educação e cultura que justifique. Ser bandido é uma escolha da pessoa que é bandida.

O segundo fato: o comerciante estar esperando pelo que aconteceu. Sim, não foi intuitiva a sua reação. O comerciante, pelo simples fato de ter uma arma e, principalmente, de saber manusear uma, já indica que ele de algum modo vive esperando que alguém possa lhe abordar como, de fato, aconteceu ao meio-dia de quarta-feira. Ele terá coragem de voltar ao seu estabelecimento, uma vez que o parente de algum dos três poderá fazer vingança? Uma vez voltando ao seu trabalho, ele vai matar os próximos três que tentarem lhe assaltar? Quantos mais ele está disposto a matar? Sim, da forma como a sociedade está estruturada, os bandidos seguirão nascendo em escala industrial…

O terceiro fato: a celebração, a comoção, a comemoração, a alegria das pessoas com o que o comerciante fez: “matou três lixos da sociedade” ou “três vagabundos” ou “pode pedir música no Fantástico” (alusão ao jogador que marca 3 gols numa mesma partida). As relações determinam os termos, ou seja, o comerciante ao matar os três, automaticamente, se transformou em assassino. Sim, o nome de quem tira a vida de outro é assassino. Ah, mas eles poderiam ter matado o comerciante… é verdade. Mas quem matou foi o comerciante. Os que se alegram e compartilham essa tragédia, igualmente, se transformam, automaticamente, em cúmplices, coniventes, incentivadores de uma sociedade “olho por olho… dente por dente”. É a barbárie! A civilização pressupõe regras de proteção e punição, prevê polícia.

Ao me sentir chocado diante de tanta celebração por este assassinato, me sinto deslocado, anacrônico, isolado. Cada vez mais.

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