São Bento: 0,2% de chance de um milagre

Amigos, vocês podem acreditar: quem não estiver sofrendo, neste momento, é um mau-caráter…

Essa foi a primeira linha da crônica de Nelson Rodrigues, publicada no dia 16 de junho de 1962 no Jornal dos Sports do Rio de Janeiro, na véspera da final da Copa do Mundo do Chile quando o Brasil sagrou Bi-Campeão Mundial de futebol. Sem Pelé, Garrincha brilhou naquela seleção ao lado de Vavá e Amarildo. Em turismo, anos atrás, tive a chance de visitar o campo desse jogo que, surpreendentemente, me pareceu mais um peladão de um clube de campo de ricos, como um que conheci em Araraquara quando visitei um amigo na época de faculdade, do que um campo da final de uma Copa do Mundo.

Obviamente que não li essa crônica de Nelson Rodrigues, “O Brasil desencadeado”, quando ela foi publicada, pois eu nasci somente em 1967. Mas ela está reunida no livro “A Pátria de Chuteiras” que está disponível, inclusive em PDF, na internet. Quando fui fazer para a faculdade de jornalismo, tinha um único propósito, ser jornalista de futebol. Não aconteceu, ao menos até agora.

O estilo Nelson Rodrigues, porém, sempre me encantou. E as primeiras linhas sempre são como o primeiro passo de uma longa jornada, quando bem dado, o texto flui e não sofro para escrever o que, suponho, o leitor também não sofra para ler.

Quem não estiver sofrendo, neste momento, é um mau-caráter…

Nunca me saiu da cabeça essa introdução.

Há tempos tentava achar algo que, de fato, justificasse parafrasear Nelson Rodrigues. E o fato do São Bento ter 99,98% de chances de ser rebaixado para a Série C do Campeonato Brasileiro – há muitas rodadas é o último colocado da atual Série B e precisa de um milagre (vencer as próximas duas partidas) e simultaneamente torcer para duas derrotas do Figueirense – me parece uma boa.

Só um mau-caráter não sofre com essa situação! Pois, seguindo meu raciocínio de parafrasear Nelson Rodrigues, assim como a seleção é o “time” do coração de todo o brasileiro, o São Bento também o é de todo o sorocabano, portanto, não sofrer para quem está nesta lastimável situação é sinal de mau-caratismo.

Não é bem assim. E aqui explico: Fui gandula do São Bento desde meus 11 anos de idade no final de 1978 (quando o CIC foi inaugurado), mas jogava no time do Estrada, da minha Vila Santana. Era um tanto esquizofrênico isso para quem olhasse de fora, não para mim. Os mais velhos achavam a minha situação vergonhosa, uma espécie de traição. Coisa que de fato nunca entendi, afinal o São Bento era profissional e o Estrada, bem, era um time de molecada.

Os 14 anos chegaram rápido. Fui para o Senai. Para a fábrica. Para a faculdade. Para o mercado de trabalho e aqui estou até hoje.

Dias atrás, minha mulher, que é produtora do programa Caminhos da Reportagem da TV Brasil, entrevistou o presidente de uma associação brasileira importante, um médico formado na Faculdade de Medicina de Sorocaba e nas conversas que se dão quando chega ao fim uma entrevista, enquanto se espera o carro que leva e traz o repórter, surgiu o nome de Sorocaba na conversa. E o médico contou a ela que aqui é a única cidade no mundo em que as pessoas da cidade torcem contra o time da cidade. Ou seja, segundo ele, o sorocabano torce contra o São Bento. E explicou: o São Bento era o time da elite, dos ricos, e o sorocabano era operário (todos, ou pelo menos 85% da cidade trabalhava nas indústrias têxteis ou na Estrada de Ferro Sorocabana que depois virou Fepasa). Então, eles gostavam de ver os jogos do São Bento e ver o time perder. O carro chegou, minha mulher foi embora, a conversa parou nessa observação do médico, hoje na casa dos 80 anos.

Essa informação explica, muito bem, o quanto me viam como traidor quando eu jogava no Estrada e era gandula do São Bento. Explica porque tenho dois amigos que embora há muitos anos exista apenas o São Bento de time profissional na cidade eles vibrem a cada derrota do Azulão e estejam, de fato, contentes com a desgraça pela qual passa o time neste 2019 em que a equipe foi duplamente rebaixada, no Paulista e no Brasileiro.

O presidente e o diretor de futebol do São Bento, assim como eu, são secretários municipais na Prefeitura de Sorocaba. Encontro com os dois frequentemente. Eles sofrem com essa situação e se pudessem fariam tudo diferente para que o São Bento não tivesse despencado.

Se eu sigo sofrendo?

Para ser sincero… Como torcedor, sigo acreditando no 0,2% de chance de um milagre. Mas se não acontecer, acho que até é melhor. Esses jogos da Série B acontecem nos horários mais absurdos que já vi e com times para lá de chatos como Oeste! Cuiabá! Futebol é de quarta-feira e domingo. Futebol é tradição. Futebol é São Bento e Juventus. Não importa em que série joguem.

 

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