Dias melhores… #emilioficaemcasa

Em “A morte do funcionário”, Tchékhov – um dos maiores escritores de todos os tempos, mestre da arte do conto – conta a história de Ivan que sentado na segunda fila do teatro para assistir a ópera “Os sinos de Conerville” tira o binóculo dos olhos para espirrar. Sim, um atchim… E salpicou com seus perdigotos a nuca de um general que estava na primeira fila.
Em tempos de CoronaVirus, em pleno século 21, o ato humano e corriqueiro de espirrar se tornou uma arma letal. E do Tchékhov do século 19 me lembrei de outra obra-prima dos contos, “Dias melhores”, este do maior literato sorocabano, Modesto Carone, que se foi de Sorocaba bem jovem e se tornou uma referência na USP, Unicamp, Universidade da Áustria. Em “Dias melhores” ele narra a história de um homem que tem sua casa atingida por tiros diariamente. E a “amizade” que nasce entre o alvo e o atirador. Uma alegoria do século 20 que eu, neste século 21, e em tempos de CoronaVirus, interpreto o conto com a forma como fomos surpreendidos pelo inimigo (vírus) e vemos nossa vida dar uma guinada de tal forma igual a personagem do conto que, para se proteger dos tiros, deita-se de bruços no chão de sua casa. A nós, resta ficarmos de braços cruzados, sem contato externo real, somente virtual.
Nas duas obras, fica a certeza de que haverá futuro. Um alento para os dias atuais, de desesperada desesperança. Os velhos, as vítimas fatais em 98% dos casos dos infectados pelo Covid19, vivem o dilema de se manterem trancafiados, e terem seus últimos dias isolados, ou seguirem a rotina e terem seus últimos dias com os poucos que ainda lhe dão atenção. Como dizia Todorov em seu ensaio “A vida em comum” , onde faz uma reflexão para compreender o orgulho e a abnegação, a identificação com o tirano ou com a vítima, o amor entre pais e filhos: “O drama da velhice não é precisar dos outros, mas reconhecer que os outros não precisam mais de você”.
Como este 2020 está insistindo em surpreender, fica o apaixonado apelo público de uma filha para o seu pai ficar em casa, depois de no privado ver suas tentativas de proteger o país fracassar. Uma verdadeira declamação de amor, apaixonada, que em dias normais seu Emília nunca teria recebido de sua filha.
Trata-se de Leila Tayar, coincidentemente a gerente da minha conta no banco:
“Emilio Tayar, pois é pai. Cada vez que o senhor vai para rua duas coisas podem acontecer: ou o senhor poderá contaminar ou será contaminado. A primeira opção é mais difícil, já que o senhor não está positivo para a Covid19. Já a segunda é bem provável e se contaminado, no mínimo irá espalhar para duas pessoas: Mamãe e Margarida. Assim, serão mais 3 a dividir leitos em hospitais. 3 que usarão respiradores e uma, pelo menos uma irá morrer. É uma culpa que o senhor irá carregar. Além de não estar colaborando em nada com o trabalho da Luiza Tayar Facchin , Jeffrey Lui Filho , Guilherme Tayar, Tania Calconi Tayar, Alexandre Abdalla Alonso Portal Drauzio Varella , Henrique Mandetta , Augusto Cury, Clinica Dr. Davi Uip Diana Tannos e outros incontáveis trabalhadores da saúde. Além de não colaborar, está atrapalhando. Indo para o hospital, o senhor irá contaminar outros tantos, provavelmente trabalhadores de saúde. A questão maior e matemática: É PRECISO INTERROMPER A CONTAMINAÇÃO. Como pode uma pessoa tão altruísta, estar se comportando de forma egoísta? Sim, EGOÍSMO é o nome para cada saída de casa. Tornei público pois conversar no privado não está resolvendo mais. #emilioficaemcasa
Peço ajuda a todos que lerem. Liguem para ele🙏”.
Leila me contou que o pai decidiu ficar em casa.

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