Um grito que se espalha

Evidentemente vivemos um momento muito difícil. E com nós quero dizer pessoas com razoável senso de preocupação ética e estética, de empatia, de solidariedade, de vida em sociedade civilizada. Corremos o risco de desumanização…

Há uns trinta anos, quando eu era um foca nas páginas do jornalismo cultural, ouvi falar pela primeira vez da expressão MC… E naquele momento torci o nariz àquela “novidade”. Nesta semana, um tal MC Gui ganhou likes e likes de fama – o que rendeu milhões e milhões de reais em escala industrial a quem têm páginas no Google com anúncios de monstros como Coca-Cola e Mc’Donalds, por exemplo – ao se comportar como o imbecil que é, zombando e humilhando uma criança, pasmem, sem saber que ela é doente, mas achando que estava fantasiada. Olha o nível do imbecil!

O brasileiro sabe quem é o MC Gui!

Hoje senti um vazio no estômago quando li que morreu Walter Franco. E de cada 10 pessoas à minha volta que falei de sua morte, 9 me perguntaram: quem?

O brasileiro não saber quem é Walter Franco!

O brasileiro sabe o que saí na TV. Ainda é assim.

Um amigo publicitário, o profissional que vive de vender produtos, reconhece a força das redes sociais, mas é enfático em dizer que é na televisão que um produto ainda se torna conhecido. Isso caminha para mudar, mas caminha…

Walter Franco sempre esteve fora da TV.

Quando ele surgiu, ao lado de outras figuras icônicas e talentosas, a TV as rotulou de Bossa Nova, Tropicália, Jovem Guarda e os artistas que se encaixam nesses ritmos eram conhecidos, participam dos programas de calouros, vendiam discos, “enricavam”, enfim. Mas haviam os malditos: Sérgio Sampaio, Itamar Assumpção, Jorge Mautner, Jards Macalé, Tom Zé, Luiz Melodia, Arrigo Barnabé… Que pouco ou quase nada apareciam nas grandes redes. Quando muito, em programas da TV Cultura. Eram taxados de muito ousados e inovadores.

Itamar Assumpção, nascido em Tietê e já falecido, sempre foi o meu preferido. Com o passar do tempo minha identificação com Walter Franco se tornou mais afável. No evento “Benditos malditos”, que o Sesc Sorocaba promoveu entre os dias 24 e 27 de outubro de 2013 – quando trouxe a Sorocaba Jards Macalé, Tom Zé e Jorge Mautner – Walter Franco esteve num bate-papo com Mautner no dia 26 de outubro daquele ano, sua última apresentação em Sorocaba. Eu estava lá.

Quando li sobre sua morte, ocorrida na madrugada de hoje, tentei me lembrar de alguma coisa que ele falou durante aquele seu show. Tinha clareza de que ele disse que morou aqui em Sorocaba por algum tempo ou que na plateia tinha alguma tia, ou parente que morou em Sorocaba. Não consegui me lembrar. Telefonei para a Marisa, que esteve com certeza estava neste show. Ela me questionou, certeza Deda que ele falou algo durante o show? E que ele morou em Sorocaba? Que tinha parente aqui? Acho que você está viajando!

Você deve ter razão Marisa, eu lhe disse.

Se algum leitor estava no show e se lembra de algo, me escreva. Se algum parente for daqui, nos conte.

Se você, caro leitor, se interessou um pouco por Walter Franco, saiba que ele é um verdadeiro poeta. Há centenas de necrológicos sobre sua morte na Internet e dezenas de suas músicas no Youtube. Vale a pena ir até lá conferir.

Em mim, do meu modo, Walter Franco vai sempre viver como um resistente.

Entre as muitas de suas músicas, há um refrão que virou hino pela carinhosa melodia de sua música e singeleza de sua letra: “Tudo é uma questão de manter/ a mente quieta/ a espinha ereta/ e o coração tranquilo”… Ou seja, de nunca se curvar perante a opressão e se manter firme, com sua opinião.

Mas na agressividade do rock “Canalha”, suponho, Walter Franco ainda poderá aglutinar jovens inconformados com a lógica de um mundo onde o único valor é o do acúmulo do dinheiro: “É uma dor canalha/ Que te dilacera/ É um grito que se espalha/ Também pudera/ Não tarda nem falha/ Apenas te espera/ Num campo de batalha/ É um grito que se espalha/ É uma dor/ Canalha”.

É um grito que se espalha… Nada. Mentira. É um grito sempre abafado. A TV nunca deu voz a Walter Franco. As redes sociais ocuparam a internet e os imbecis, como o MC GUI e seus seguidores, tomaram conta dela.

Walter Franco esteve aí durante tanto tempo, mesmo assim o brasileiro não o conhecia. A TV impediu que ele se tornasse um amigo da família. Uma pena! Há um disco seu pronto para ser lançado. Depois de 18 anos do último lançamento. Estou ansioso para ouvir.

Walter Franco morreu aos 74 anos, em São Paulo, por causa das sequelas de um acidente cardiovascular ocorrido duas semanas atrás. Seu corpo foi cremado na Vila Alpina.

A imagem que ilustra esta postagem é uma montagem feita em cima de foto de Alexandre Xavier, feita no Sesc Sorocaba no dia 26/10/2013.

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