Um homem de bons exemplos

Ele foi uma pessoa tão diferente, mas tão diferente, a ponto do seu nome completo ser seu sobrenome repetido duas vezes. Ele tinha o título de advogado, dos bons, de tradição em Sorocaba, mas classificar sua existência à sua profissão seria resumir a grandeza da sua atividade em vida. Lembrar do seu trabalho atuante de Encontro de Casais com Cristo e das Equipes de Nossa Senhora seria resumir sua fé a um tamanho muito menor do que de fato foi. Falar da importância da sua benemerência (fosse como rotariano, dirigente da Guarda Mirim ou pelo seu incansável trabalho em prol da Santa Casa de Sorocaba) seria apequenar a grandeza da sua importância.

A morte de Latuf Latuf, aos 97 anos, na última terça-feira, é uma das minhas mais difíceis manifestações nesta seção “Minuto de Silêncio”, pois qualquer coisa que seja dita, ainda assim será muito menor diante da grandeza de Latuf Latuf.

Talvez alguns exemplos ajudem a entender o trabalho de Latuf Latuf, ou melhor, a importância da sua existência. Ao saber da sua morte, dirigindo-se ao amigo Alexandre (um dos filhos de Latuf Latuf), num grupo de whatsapp do qual eu faço parte, o empresário Paulo Walter Leme dos Santos assim se expressou: “…Perdi um grande amigo e conselheiro…”; o empresário Luiz Reze disse: “…Todo domingo após ir à missa, caminhava pela rua Goiás, de braços dados com tia Nádia, até a casa de meu avô. Sempre comparecia às rodadas de buraco, tanto em Sorocaba como em Mongaguá. Toda vez que me via, (Latuf Latuf) me perguntava: No caso de um conflito entre o Líbano e a Itália, de que lado você ficaria? E dava risada…”; o médico Tadeu Morad disse: “…mais um dos grandes amigos do meu pai que se vai…”; ao jornal Cruzeiro do Sul, edição de hoje, o presidente do Hospital Oftalmológico de Sorocaba (BOS), Pascoal Martinez Munhoz, disse “…deixou grandes e bons exemplos”.

Latuf Latuf foi um homem de bons exemplos, por isso podia ser conselhiro, por isso era ouvido, por isso sua simpatia ajudou a forjar o caráter de homens importantes e que estão no comando de parcela importante da atividade empresarial de Sorocaba neste século 21.
Em razão da minha amizade com seu filho Alexandre, me encontrei algumas poucas vezes com seu Latuf Latuf e fiquei surpreso, e principalmente feliz ao mesmo tempo, em saber que ele era meu leitor. Aliás, um ávido leitor, pois nunca deixou de ler e se aperfeiçoar ao longo de sua história, sempre pregando a importância do conhecimento. Foi um leitor crítico, que sabia separar a informação de um texto e enxergar as intenções do seu autor.

O quarto de 10 irmãos, Latuf Latuf nasceu em Santos e mudou-se para Sorocaba com 4 anos, e carregou sua origem árabe com orgulho, do sangue da mãe, Agize Reze Latuf, libanesa, e do pai, Issa Latuf, nascido na Síria. Carrega em si essa tradição dos sírio-libaneses, simplificandamente chamados de “turcos” em razão de terem a Turquia como porta de saída do Oriente, local onde conseguiam o passaporte de emigração. No Brasil, os sírio-libaneses são os estrangeiros que mais se adaptam aos nossos costumes e isso ocorre, possivelmente, pela docilidade de temperamento, por professarem a mesma religião, serem pacientes e adotarem, em definitivo, a nova terra como a pátria. Descendentes dos fenícios (sim, aqueles da Bíblia), os sírio-libaneses são comerciantes natos e mantém a tradição dos antepassados, conhecidos pela facilidade para o comércio. Latuf Latuf não foi diferente, e teve duas lojas no Centro de Sorocaba, as tradicionais Casa Santista e a Casa dos Três Irmãos, até que se formou em Direito, na Fadi, e seguiu na profissão.

Em tempos de CoronaVírus, é importante o registro de que a morte de Latuf Latuf ocorreu em virtude da idade e de complicações da diabetes. Viúvo desde 2015, ele deixou os filhos Alexandre, Ruy (empresários) e Sérgio (médico cardiologista), três netos e dois bisnetos.

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