Vai Raloimmm, vem Raloimmm, e o Saci segue tomando uma surra da Bruxa

Minha neta saiu linda de casa hoje, vestida e maquiada para brincar o Raloimmm com seus amigos da escola de inglês.

Minha intenção era chateá-la sobre o Saci, que eu sei que ela sabe o que é, pois já aprendeu na escola, mas estávamos eu e ela em cima da hora e apesar de ser bastante inteligente para os seus 5 anos de idade, minha ironia demandaria um tempo que não teríamos para debater a tese: Raloimmm x Saci.

O Dia do Saci-Pererê, figura mitológica do imaginário folclórico brasileiro, foi criado com a intenção de valorizar o Folclore Nacional ao invés do Dia das Bruxas (Halloween) que é celebrado nos Estados Unidos e invadiu o Brasil.

Com o objetivo de fazer resistência à cultura estadunidense, a Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados elaborou o Projeto de Lei Federal nº 2.479, de 2013, que institui o 31 de Outubro como sendo o Dia do Saci. No Estado de São Paulo, a Lei nº 11.669, de 13 de Janeiro de 2004, já oficializava o dia 31 de Outubro como Dia do Saci.

Como se pode ver, nesses 15 anos no Estado e nesses 6 anos no Brasil, o Saci vem tomando uma surra, feia, da Bruxa. E por quê?

Por que a cultura é o conjunto de informação, hábito, estética, comportamento… não-hereditário, ou seja, não se passa pelo gene de pai para filho, portanto. Passa pelo convívio, pelo contato, na relação diária, no cotidiano dentro de casa, da rua, da escola, da igreja, do clube, do time, do clube, do grupo. Ou seja, não é um dia, artificialmente criado por lei, que se combate uma cultura. A alegria das crianças em torno das brincadeiras do Raloimmm é invencível com leis, talvez, quem sabe, seja vencida com mais alegria e brincadeira.

Em 1978, quando entrei no antigo ginásio, na 5ª série, e os alunos deixavam de ter um professor e passavam a ter um professor para cada nova disciplina, me lembro da primeira vez que tive contato com a Língua Inglesa. Até então, xereteando nos livros dos meus irmãos, eles tinham aula de Francês.

Meu tio Zé, irmão caçula da minha mãe, durante a vida inteira trabalhou na editora Abril na parte dos gibis – assim é que nós chamávamos o que hoje se chama HQs, a História em Quadrinhos – e ele virava e mexia trazia para casa uma leva dessas revistas que introduziam em nosso cotidiano elementos da cultura estadunidense.

Madame Min (a bruxa da floresta) e Maga Patalójika (a bruxa que tenta roubar a moeda número 1 do Tio Patinhas) fizeram parte de mim, da minha formação como leitor, muito antes do meu contato com o Saci que, esporadicamente, eu via nos almanaques do Biotônico Fontoura que conseguia ver na casa do Joe, meu vizinho, a primeira pessoa na vida que vi tocar piano. Só muito depois conheci o Saci no Sítio do Picapau Amarelo que a TV Globo adaptou dos livros de Monteiro Lobato.

“Entendemos que a comemoração anual do Dia do Saci permitirá um contato sistemático com a variedade e a beleza das tradições do País, de modo a fortalecer o processo de consolidação da identidade nacional bem como a auto-estima do povo brasileiro”, escreveram os deputados autores do projeto que tornou lei a comemoração do Dia do Saci.

Nunca li balela maior do que essa.

Apenas a cultura, que não é hereditária, é capaz de qualquer influência sistemática num ser humano. A cultura dos Estados Unidos se sedimenta a cada dia nos filmes que dominam 95% das salas de cinema do Brasil; 90% do horário de exibição de filmes do horário de exibição da TV aberta e 98% do horário de exibição de filmes na TV fechada. A principal indústria do mundo é a de entretenimento dos Estados Unidos, a que produz a dominação de mentes, ou seja, seus gostos, hábitos, estética…

No máximo, há guetos de resistência no Brasil. Tento fazer deste espaço um desses guetos.

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