Vamos botar um livro nessa cesta?

Eu era um jovem jornalista do jornal Cruzeiro do Sul, quando Carlos Maria, o chefe de reportagem, sugeriu e Sérgio Coelho de Oliveira, o Pinga, editor-chefe, aceitou e me convidou para trabalhar nas páginas de Arte e Lazer daquele que era, sem margem à dúvida, o principal veículo de comunicação de massa em toda a região de Sorocaba. Pouco depois fui para o emblemático caderno Mais Cruzeiro, que saia apenas aos domingos, e cheguei precocemente a editor.
Um dia, na mesa da diagramação com o saudoso Molina e Bimbão (na foto compartilhada pelo Cássio na semana passada) local onde acontecia as principais reuniões da redação, onde qualquer hierarquia ficava em segundo plano, João Alvarenga – poeta, professor e apresentador do programa de rádio “Nossa Língua Sem Segredos” – à época repórter, sugeriu fazer uma reportagem sobre uma idéia que ele havia tido: que a prefeitura incluísse nas cestas básicas de alimentos que distribuía um livro. E, apaixonadamente, ele defendia a sua ideia. Isso, salvo algum engano de um ou dois anos, no já longínquo 1986 ou 87.
De lá para cá o mundo foi virado de pernas pro ar a ponto do jornal impresso ser um objeto em processo de extinção, caso sigam editando ele como faziam antes da era digital, e o cérebro humano ter ganhado um HD externo na ponta dos dedos com o acesso ao que o Google e seus similares nos oferecem via celular (aliás este e meus recentes textos aqui publicados são escritos no celular e apenas com o meu dedão, polegar, direito). Mas, mesmo assim, algumas coisas pioraram muito. E o acesso ao livro é uma delas.
Para quem acha que há uma contradição nessa defesa (livro impresso X internet) evoco os cientistas que já demonstraram que as conexões, sinapses, cerebrais se desenvolvem de modo diferente quando desenvolvidas em plataformas diferentes, ou seja, o computador só é muito importante caso o cérebro humano tenha passado pela experiência de ter em mãos o livro impresso e, em especial, a literatura.
João Alvarenga fez uma proposta adiante do seu tempo. Lamento não ter dado força para que ela tivesse se concretizado. Lamento mais ainda quando leio que Claudia Tajes, escritora e roteirista, com 11 livros publicados, autora de “Macha”, contar em seu blog que a capital do Uruguai vem misturando batatas com Albert Camus. Lentilhas com Julio Verne. Leite com George Orwell. Arroz com Horacio Quiroga. E, para não deixar “los niños” só olhando, cabelinho de anjo com J.K. Rowling. Ou seja, Montevidéu distribui livros em cestas básicas para enfrentar o isolamento. É farinha com Juan Carlos Onetti. Óleo com Hermann Hesse. Café com Mario Benedetti. Cenoura com García Marquez. Nas palavras do secretário-geral de Montevidéu, “a cesta básica, mais do que algo para superar a emergência, deve ser um carinho no coração das pessoas”.
Coloquei em contato um amigo, empresário, com o meu colega de prefeitura responsável pela área social e sei que sairá uma boa ação a quem mais precisa de socorro alimentar nestes tempos de isolamento e CoronaVirus. Um outro amigo empresário está juntando cestas básicas. Sugeri a inclusão de um livro. A ideia foi bem recebida. Quem sabe o sonho do João Alvarenga vingue depois que a vida voltar ao normal, com o fim do Covid19. Quem sabe Sorocaba se torne uma cidade de leitores, de livrarias, e não de farmácias.

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