Violaram minha intimidade. E tenho que dizer tudo bem…

Como jornalista, principalmente na função de editor, nos últimos 30 anos, noticiei incontáveis casos de furto e roubo. O objetivo sempre foi dizer à sociedade: aumentou, diminuiu, está na média. Ou, subliminarmente a mensagem era: a vida está dentro da normalidade. Não há tantos ladrões por aí, apenas os que sempre estiveram.

Funcionou por um bom tempo esse modelo de jornalismo. Mas na era digital – de comunicação instantânea e onde o emissor (antigamente, apenas os veículos) é qualquer cidadão com um celular na mão conectado a uma rede – esse modelo falhou. E quem não percebeu isso ainda perde leitores, ouvintes, telespectadores, jogam dinheiro fora, portanto.

A cada novo passaralho (no jargão jornalístico significa demissão em massa de jornalistas em uma empresa), como o que ocorreu recentemente nas Organizações Globo em nível nacional e no jornal Cruzeiro do Sul, no local, é enfatizada a convicção: a mídia tradicional está acabando, o jornal impresso está moribundo na UTI apenas contando os dias para que seja decretado seu definitivo e derradeiro desaparecimento. E me sinto cada vez mais impotente em defender minha visão, que é contrária a essa.

Uma experiência de estar do outro lado do balcão (ser a notícia e não quem a reporta), vivida na noite passada, porém, me renova a convicção de que há, na sociedade, espaço para o jornalismo. Isso significa deixar para os emissores de rede social o que eles querem falar e contar histórias.

Perdeu o sentido noticiar que o número de furtos a residência está, estatisticamente, dentro da normalidade. Mas faz todo sentido contar a experiência de quem viveu esse fato, que foi o que aconteceu comigo.

Depois de um longo dia de trabalho, por volta das 19h30, minha filha estava em seu quarto e, por whatsapp, me perguntou se eu havia chegado em casa. Respondo que não e digo onde estou. Ela explica que ouviu barulho nos fundos de casa. Eu digo para ela ir ver o que era. Por sorte, ela mandou a mesma mensagem para a mãe que, imperativa, lhe disse: saia já daí. E ela pegou o carro e saiu. Voltou com os vigilantes e constatou que haviam entrado em casa.

Cheguei perto das 23h30 e não acreditava na cena: todas as gavetas da casa reviradas, roupas, livros, sapatos jogados no chão, marcas de pés de barro por todo lado.

Passado o choque inicial, de ver meu espaço de intimidade invadido e violado, uma sensação terrível de prostração e impotência começou a me dominar. Não comi, nem bebi, nem tirei a roupa que estava grudada em meu corpo há doze horas.

O que eu fiz para merecer isso? Uma espécie de negação me invadiu. Me senti culpado.

Depois uma sensação de euforia, de imaginar culpados, me fez levantar e ver o que de fato havia acontecido.

Esposa, filha, neta se aninham na mesma cama e tentam mostrar que juntos estamos livres dos invasores. Uma espécie de catatonia queria me deixar “pra sempre” na cama. Até que o Sol aparece, ignorando a minha dor e cansaço, e me empurra para debaixo do chuveiro. Trabalho, delegacia, boletim de ocorrência, ligação ao seguro, explicar o que sumiu. E ver nos rostos espantados de quem é acostumado a registrar furtos nas mais diferentes casas o espanto de que deixaram tudo (TV, jóias, relógios, bebdas…) para trás, menos câmera fotográfica, notebooks, celulares e uma pasta de documentos (diplomas, certidões, registros, certificados, passaporte…). Você é jornalista, será que não queriam alguma coisa? Que coisa! Não sou e nunca fui o tipo de jornalista que coleciona documentos contra ninguém. E quem poderia querer algo de mim? Uma paranoia que não me atinge, mas que o outro, fantasiando o que é ser jornalista para ele, faz questão de me transmitir.

Passei o dia borococho. Não pelo bem material perdido, nem pela trabalheira que terei em filas do Cartório, Detran, Poupatempo, Universidade…, mas por ver nos olhinhos da minha neta, sentir na sua vozinha nas mensagens de whattsapp que me enviou, a busca de minha afirmação, convicta: está tudo bem.

E eu sei que está, pois não houve agressão, nem física ou psicológica (incrível a quantidade de amigos que já passou por uma experiência, pior do que a minha, e eu nem sabia) o que seria traumático. Sei que é vida que segue. Sei tudo o que é racional, mas isso não ajuda, em nada, meu emocional. A vontade é de dormir. Não há ânimo para arrumar nada. A marca do pé de barro no chão da lavanderia está cravada em meu coração.

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