Zeladora ensina sobrinho de 11 anos, que está na 4ª série, a ler

Quando leio que a escola francesa – fábrica de cidadãos, motor da meritocracia e pilar histórico da identidade da França republicana – volta ao básico (Ler, Escrever, Contar, Respeitar) e publico no portal de notícias da Secretaria de Comunicação da Prefeitura de Sorocaba (do qual sou responsável pelo ofício que estou designado para desenvolver enquanto o secretário titular da pasta) que 104 estudantes dos 5º anos da Escola Municipal “Prof. Edemir Antônio Digiampietri”, da Vila Barão, concluíram projeto para corrigir a necessidade de incentivar a leitura e melhora na escrita dos estudantes da escola, percebo que há motivos, de sobra, para entender que aqui ou em qualquer parte do mundo é possível fazer da nossa realidade tecnológica um lugar mais humano.

Mas é quando leio histórias como a da zeladora Magda que minha crença no ser humano se renova.

Magda é uma amiga antiga. Ela me conta que seu sobrinho de 11 anos está na 4ª série na escola estadual do Carandá, o bairro mais extremo de Sorocaba, quase na divisa com Porto Feliz. E ele não sabe ler. Sim, na 4º série e não sabe ler e escrever.

Magda me fala que o marido da sua irmã, o pai, um ignorante, chama de burro o seu sobrinho. E que sua irmã, a mãe dele, dedica 99% do seu tempo a cuidar da irmã, uma pessoa especial devido a problemas mentais. Assim, nos seus 11 anos de idade, o menino praticamente vive e sobrevive só.

Magda, que acorda às 5h para preparar as coisas da casa e pega ônibus para chegar ao trabalho onde faz faxina e zeladoria num prédio de apartamentos residenciais até às 17h para estar em casa de novo às 19h, resolveu nos finais de semana dar tarefas ao sobrinho: caçar letras em jornais e revistas; depois a juntar essas letras; a explicar o som das letras e de como a partir da junção das letras nascem palavras que dão nomes as coisas concretas e abstratas.

O menino ganhou autoestima ao começar a ler sozinho histórias em livros para crianças de 5 e 6 anos. A professora da 4ª série elogiou a sua evolução. E Magda está preparando o sobrinho para enfrentar o pai. A estratégia é que o menino esteja bem confortável com a leitura e, em voz alta, parado na frente dele, leia seu texto e diga: tá vendo, não sou burro porque burro não aprende e eu aprendi.

Magda me emocionou ao contar essa história. Me emociona ao contar suas histórias. Me emociona ao falar de suas idas aos programas de auditório (Faustão e Ratinho, são seus preferidos). Me emociona por ser a vencedora que é, tendo saído de um sítio de Tapiraí e criado dois filhos, um neto e ainda ajudar a mãe.

Magda é um exemplo de que quando o Estado falha, uma boa alma pode ajudar quem está perto.

Projeto da escola municipal

Se Magda é um exemplo de ação individual, em Sorocaba, as professoras dos 5º anos, Cláudia Regina Lucas Queiroz; Rosângela Poletto Alves dos Santos; Patrícia de Oliveira Cardoso e Maria Efigênia Félix, por sua vez, são exemplos ao mostrar que a presença do Estado (no caso a Prefeitura) pode mudar a vida de quem precisa ajudando cada criança a desenvolver, além de toda questão de leitura e escrita que engloba a alfabetização, a parte sócio emocional, a criatividade e a importância das particularidades de suas histórias que, ficção ou não, são histórias de suas vivências e experiências na vida.

O projeto mobilizou toda unidade, fazendo com que as professoras trocassem informações entre si e gerou grande interação entre os alunos. Todo este esforço culminou na criação dos livros (foto) com propriedade integral das crianças. “Eles escolheram desde o título até a ilustração do livro. E, claro, a parte escrita foi totalmente desenvolvida por eles. Além disso, eles usaram muitas versões de linguagem atualizadas que aprendem na internet”, explica a orientadora pedagógica da unidade, Patrícia Callado, que seguiu o Projeto Político e Pedagógico.

Projeto da escola francesa

Com esse mesmo espírito, de aprender, é fundamental entender o que está por trás da decisão francesa, de proibir o uso de celulares em sala de aula e levar o Latim e o Grego para os alunos: o foco não reside apenas no conhecimento, mas nas ferramentas para adquirir e aplicar este conhecimento: “Devemos estar atentos para que este novo mundo, caracterizado pela Internet e as novas tecnologias, não nos dê soluções enganosas. Quanto mais entramos neste mundo em que temos que saber programar, mais interessante é conhecer a história grega e latina. A aprendizagem do latim e do grego contribuem para o desenvolvimento da lógica, facilitam a aprendizagem de outras línguas e permitem estabelecer uma ligação entre diferentes conhecimentos”, explica o ministro francês.

Na escola da Vila Barão em Sorocaba, foi utilizada uma plataforma digital, com sugestões de sequências didáticas subsidiando os estudantes com atividades permanentes, além de dar suporte na questão de gêneros textuais. Patrícia, orientadora pedagógica da unidade, explica que esta plataforma gera um código com papéis de ilustração e texto. Quando o conteúdo é inserido, todos os dados são digitalizados com as adequações necessárias, produzindo um e-book. As turmas da manhã optaram pelo gênero textual de autobiografia, já as turmas da tarde preferiram o gênero textual de contos de fadas modernizados. O trabalho de biografia das crianças contou com a colaboração dos familiares, tanto na escolha da foto quanto na produção do texto.

Assim, seja na iniciativa de Magda, das professoras municipais ou do ministério francês o que importa a um ser humano é Ler, Escrever, Contar, Respeitar. Qualquer outro caminho passa por estes 4 estágios para a construção de verdadeiros cidadãos.

Futuro trágico

Esse é um caminho longo, mas o único que vale a pena. Cabe a cada um de nós estarmos atentos para que toda criança esteja apta a passar por estes 4 estágios, do contrário o futuro de todos nós será sombrio como o do jovem de 22 anos, traficante flagrado pela polícia em seu apartamento num prédio de luxo no centro de Sorocaba, na semana passada, que diante do iminente fato de ser preso, preferiu desferir um tiro contra a sua própria cabeça. Certamente, ele não teve a sorte e o acaso de ter uma tia Magda em sua vida.

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