“Você jamais vai dizer que ele é bandido”

Em diferentes grupos de whatsapp, na tarde de hoje, circulou uma mensagem de uma mulher contando que ela quase foi sequestrada hoje em Sorocaba na região do Jardim Faculdade, o conjunto de prédios, edifícios, moradias, clínicas, academia, escritórios que fica entre as avenidas Washington Luiz e Barão de Tatuí.

A pedido de uma amiga, comum ao grupo originário onde circulou a mensagem, a autora do áudio (leia abaixo a íntegra da gravação), descreve os sequestradores: Um deles tem cabelo preto e fala caipira. O outro, 1,80 metro, olhos azuis, louro, super bem vestido que, enfatiza ela, “você jamais vai dizer que ele é bandido”.

Li outro dia alguém dizendo que não basta não ser racista, mas tem também de ser antirracista.

É disso que desejo falar. Dessa frase dessa mulher, vítima de algo tão terrível que é a tentativa de um sequestro e merece toda minha empatia e solidariedade. Ela, me parece evidente isso, não se dá conta do que falou. Apenas foi espontânea em sua intenção de dar os detalhes dos dois bandidos, como lhe pediu uma amiga.

É alguém, suponho, como a média do brasileiro, educada nas novelas da TV Globo onde, por décadas e décadas, cabia ao preto o papel de subalterno, fosse como empregada doméstica, segurança, ajudante… ou no papel do vilão. Não é uma mulher educada na literatura, lendo, exercendo seu cérebro de uma maneira menos obtusa.

Ponto. Isso pode até explicar, mas não justifica que em pleno século 21 alguém ainda pense e dissemine frases com tamanho preconceito “você jamais vai dizer que um homem alto, 1,80 metro, olhos azuis, louro, super bem vestido é bandido”. Pois ao ler essa frase nas entrelinhas, ela afirma: Um homem preto e mau vestido é bandido.

Não é essa a realidade. Os verdadeiros bandidos, aqueles que nos levam trilhões, acabam estando com gravata, paletó, carro de luxo, moradia de primeiro mundo. Levam o dinheiro da educação. E não digo diplomado, pois educação é muito mais do que qualquer diploma. É a capacidade de ler e interpretar um texto. É a capacidade de entender o peso das palavras que profere independentemente da situação de estresse que esteja passando. Nessa hora, aliás, o que saí de nós é o que verdadeiramente somos, sem filtro.

A íntegra da mensagem

“Pessoal, a Jú me mandou mensagem, perguntando qual a característica deles. Eu vou gravar para vocês para todos saberem. É o que eu falei para a polícia. Um deve ter um metro e setenta, cabelo escuro, preto. Está super bem vestido com uma calça social, uma camisa azulzinha bem clara. O outro é bem alto. Deve ter um metro e oitenta pra mais. Ele é louro e de olhos azuis. Ele está com uma camiseta pólo azul, um azul mais para o celeste. Eles estão super bem vestidos. Um fala caipira, o primeiro que aborda, ele fala bem caipira mesmo. E o outro você jamais vai dizer que ele é bandido. Nunca na vida você vai falar que ele é bandido. E ó, eu encontrei a Gláucia, e ela falou que eles tentaram fazer ali na Drogaria São Paulo, do Marcinho, aqui no Campolim, tá? Então eles estão nas redondezas e eu já informei a polícia que eles tinham tentado fazer isso para que eles possam colocar ronda. Os dois estão ali. Eu parei ali na rua lateral da Ápice. Quando eu dei ré no carro e consegui sair, eles saíram correndo. Eu dei a volta no quarteirão e eles não estavam mais ali. Então com certeza deve ter uma terceira pessoa de carro esperando por eles. Tá bom? Tomem cuidado viu?”

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