Há Marias Antonietas em nossas ruas

“Se as pessoas têm fome e não tem pão, que elas comam brioche”.

Essa frase, comumente atribuída a Maria Antonieta (1755-1793), teria sido proferida durante uma das fomes que ocorreram na França durante o reinado de seu marido, Luís XVI.

Verdadeira ou não ela explica didaticamente a estupidez de uma elite desconectada da realidade do seu povo.

Digo isso diante do relato que ouvi hoje cedo num dos semáforos da avenida Armando Pannunzio em Sorocaba, num ponto onde há mais de dez anos eu compro balas de ovo com coco do mesmo senhor. A esposa faz e ele vende.

Eu não sei o nome dele, nem ele o meu, pois ele precisa ser ágil em suas vendas que duram os segundos do sinal vermelho.

Mas hoje ele quis desabafar. Perguntou se eu vi o Volvo XC 90, ou algo assim, e eu respondi que não. Com os olhos embargados ele falou que o motorista disse que não queria a bala dele (fato corriqueiro em sua atividade de vendedor de balas) e era errado ele ficar ali. Foi isso que o machucou, dizer que ele estava fazendo algo errado.

“Eu estou trabalhando, como é errado!”

Era uma mistura de interrogação e exclamação a sua indignação. Eu tentava achar alguma palavra de consolo e então ele me disse: “Não sei o que deu em mim, mas sabe o que falei para ele? Ahhh, você está certinho. Eu vou abrir uma biqueira de drogas e vender para o seu filho, pode deixar. O babaca ficou com cara de tonto” E meu amigo vendedor completou: “Eu e minha mulher somos do bem, nunca vamos vender drogas… Mas tem gente que acha que se a gente sair daqui tem emprego sobrando na esquina…”

Nesse momento já havia motorista buzinando e eu fui embora.

E fui pensando na lucidez do meu amigo vendedor de balas de coco sobre a realidade desse país e na estupidez de quem está no conforto do ar condicionado do seu carro importado julgando o outro pela sua régua assim como fez Maria Antonieta quando seus súbitos explicaram a ela a revolta do povo francês e ela lhe disse: Ahhh, não tem pão, dê brioches (uma espécie de pão)… Como se o problema não fosse a fome de qualquer comida.

Só um imbecil para achar que é opção, e não falta dela, estar no semáforo embaixo de sol, chuva, vento,  frio e calor insuportável…

Há duas semanas, descendo a avenida Antônio Carlos Comitre, no bairro Campolim, um carro de luxo, SUV, acho que era uma Mitsubishi, mas poderia ser um Volvo, virou e olhei para sua traseira onde havia o adesivo Brasil: Ame-o ou Deixe-o. Me embrulhou o estômago em pleno século 21 alguém usar um adesivo que virou slogan do golpe militar de 1964. Como ando triste!

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