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Saindo da padaria, já na calçada, me encontrei com um daqueles colegas das antigas. É o tipo de pessoa que nunca chegou a ser meu amigo, mas pela qual desenvolvi apreço e respeito por ocuparmos o mesmo espaço durante boas horas de um dia e bons dias de uma semana em razão do trabalho que fazíamos. 

Aí cada um foi para um lado e os anos se passarsm e a gente não se falou mais. Não quer dizer que não me lembrei ou pensei nela, mas o fato é que o cotidiano se tornou outro e novas pessoas preencheram o espaço dedicado aquele colega de outrora.

Até que as décadas passam e o acaso faz com que a gente se trombe na porta da padaria. No caso em questão, eu saindo e ele entrando. 

Primeiramente foi aquela festa: Quanto tempo… Você lembra daquele dia… E aquela vez… Há muito entusiasmo e risadas. Passado este instante, pois é de fato isso, um instante, temas do tempo presente entram na conversa e então surgem as nossas diferenças. Um percebe um certo constrangimento do outro, por alguma coisa falada, e calibra a próxima fala afim de não azedar o clima.

No caso, com este meu amigo, eu insisti em criticar o posicionamento do jornal mantido pela instituição da qual ele faz parte. Ele desconversou e eu fui chato impedindo que ele mudasse o rumo da conversa. Então ele me indagou: Vamos deixar este assunto para lá?

Eu não sei exatamente que feição tomou meu rosto, mas ambos caímos na gargalhada.

Nossa conversa havia chegado ao fim. Demos um passo em sentidos opostos e desejávamos sucesso e saúde quando meu amigo mudou sua trajetória e veio em minha direção. Perto de mim, deu-me sua mão e nos cumprimentamos. Então, ele disse: Na minha idade, a gente nunca sabe se vai ter a oportunidade de pegar na mão de um amigo novamente…

Então, diante de minha surpresa, ele voltou a caminhar em direção a porta de entrada da padaria e quando estava um tanto distante ele falou alto: Já estou com 84.

Ele entrou na padaria e eu pensei que há três décadas nunca havia pensado que eu sou 25 anos mais novo que meu amigo. E me surpreendeu sua consciência de que seu fim o espreita. Fiquei imaginando como é difícil viver assim e pensei: E se ele viver até os 94 anos, o que é factível nos dias atuais, como serão seus dias acordando a cada dia como se fosse o último?

Vou dizer isso a ele no nosso próximo encontro. 

Agora vou contar uma outra conversa, com um amigo que está com 80 anos, ocorrida poucos dias depois do primeiro encontro. 

Uma pessoa que admiro muito pela sua história de vida cujo seus atos diante dos acontecimentos sempre foram os mesmos: Vivê-los, jamais lamentá-los. Um desses fatos diz respeito ao seu projeto de abrir uma pizzaria com forno à lenha num determinado local. A fiscalização não deu autorização. O que ele fez? Abriu uma farmácia. E foi um sucesso. Numa outra, o avião que ele pilotava, pulverizadondo plantações agrícolas, teve uma pane e o que ele fez? Planou a aeronave até achar um local possível de aterrissar. Um fato ocorrido com ele exigia que ele fosse a Barretos, passar uma temporada, e o que ele fez? Se mudou para lá. Não há nada que ele não encare com a naturalidade de um sábio. Eu o admiro demais. 

Em nossa última troca de mensagem, eu organizando nossa ida à feira para comer pastel, ele me disse: Teremos tempo para programar isso, sem pressa!

Viver é como encaramos os acontecimentos que nos acontecem. E não se desesperar ou sofrer por antecipação é o melhor deles, certamente.

Como disse László Krasznahorkai, Prêmio Nobel de Literatura 2025, dias atrás, em sua palestra por ocasião da solenidade onde recebeu seus dividendos, próximos de 1 milhão de dólares, por ter sido o agraciado deste ano:

“…Uma estação iluminada passa deslizando após a outra, eu não desço em lugar nenhum; desde então, tenho viajado naquele metrô pelo túnel, porque não há parada onde eu possa descer, simplesmente observo as estações passando, e sinto que pensei sobre tudo, e disse tudo o que penso sobre dignidade humana…” (É bastante longo o discurso, chega a ser um sacrilégio pegar esta pequena frase, mas ela diz muito sobre as histórias aqui contadas. E, por fim, quem traduziu: Ottilie Mulz, peguei de Ronaldo Bressane, que sigo no Substack).

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