Fazendo o que se espera

Compartilhar

Este livro, “Distância de Resgate”, o primeiro romance da argentina Samanta Schweblin, é tão premiado e elogiado por escritores consagrados, como Mário Vargas Lhosa, que classifica a autora como voz promissora da literatura contemporânea em língua espanhola, que eu deveria simplesmente me calar a respeito dele, pois tudo já foi dito, ou entrar na onda de elogios, afinal foi lançado em 2014 e editado no Brasil em 2016 e falar dele, agora, em 2025, seria algo de poucos sentidos, não fosse este blog espaço para os livros que aqui aparecem serem exclusivamente, 99%, de segunda mão, comprados em sebo. São livros novos, pois todo livro não lido é novo, embora não lançamentos. E relembro a você, leitor, que o meu propósito não é fazer crítica literária, mas um fichamento de cada livro que li.

Comecei a ler “Distância de Resgate” alguns anos atrás, não sei dizer exatamente quando, se em 2023, 22, e abandonei a leitura pouco antes da metade, me indica o marcador de página. Então, há algumas semanas, li algo a respeito de Samanta Schweblin e pensei comigo algo do tipo acho que já li algo dela e então descobri que não havia terminado e decidi ler. É o tipo de livro que se lê numa sentada.

A escrita é absolutamente correta e saí com um fluxo contínuo de dentro de Schweblin como um vômito saí de dentro da gente, quando se está doente, por mais que se tente controlar. “O romance leva ao extremo da perfeição duas técnicas literárias nem sempre fáceis de se harmonizar: a tensão dramática e o estudo psicológico”, são palavras do júri do Prêmio Tigre Juan de 2015 ao outorgar ao livro o vencedor daquele ano.

Mas isso não explica o livro. O drama e a psicologia referem-se a uma mãe que herdou, culturalmente, da mãe dela a certeza de que algo ruim está o tempo todo para acontecer com um filho e é preciso estar perto, numa distância segura (a tal distância de resgate), para socorrê-lo. E Amanda, a narradora, conversa mentalmente com David, filho de sua amiga Carla, ele vítima da “negligência” dela, com a própria Carla que lhe conta o que aconteceu com David e Nina, sua filha, que sempre corre seja pela casa, em torno da casa, em torno de um poço, para buscar biscoitos… É um diálogo contínuo e letras em itálico ajudam a não confundir com quem Amanda está falando.

O que Mário Vargas Llosa diz sobre Samanta Schweblin, dela ser uma voz promissora, e é um dos paratextos do livro, ao final, o leitor se certifica, é: Trata-se de mais um livro do chamado Realismo Mágico, cujo os expoentes são o colombiano Gabriel Garcia Marquez e o mexicano Juan Rulfo, aquela literatura onde o sobrenatural se faz presente por meio de crenças (David ao ser socorrido não é levado a um hospital, mas a uma curandeira) de uma cultura, no caso das pequenas cidades rurais do interior da Argentina. 

Toda a edição brasileira do livro esconde do leitor que o livro está centrado neste pilar. Eu, enquanto leitor, gostaria de ver a harmonia do drama e psicologia num ambiente real, sim, de realidade, mas não de fantasia.

“Distância de Resgate” acaba sendo mais um livro que prova que a literatura tem nichos de modo que se a escrita de um autor se limitar ao seu nicho se vê nele talento e lhes dá prêmios. É como um cachorro adestrado que ganha um biscoito por fazer o que se espera que ele faça.

A literatura tem dono. E esse dono restringe aos autores da América Latina escrever sobre magia e afins, sem exceção, do contrário não lhe dá reconhecimento algum. Fico pensando se David, ao invés de sido levado para a casa verde para passar por uma transmigração de corpo e alma para ter sua vida salva, e modificada, tivesse sido levado a um hospital e passado por procedimentos realistas, portanto não mágicos, se Samanta Schweblin continuaria sendo vista como promessa da literatura contemporânea. Duvido muito, pois ela não estaria obedecendo ao que se espera.

Enfim, valeu a pena ler. Mas não é o tipo de literatura que eu gosto. Sou do tipo que leva um filho ao hospital e não à curandeira.